Walber Gonçalves de Souza*
Democracia ao pé da letra significa governo do povo para o povo. Portanto, segundo os princípios democráticos, caberá ao povo escolher quem o governará. É justamente o ato de escolher que fará a diferença, pois vencerá aquele que for o mais escolhido: na prática, o mais votado. Portanto, que tenhamos claros os motivos das nossas escolhas, algo difícil na era da manipulação midiática. Por isso é preciso estar atento à qualidade da informação.
Historicamente, percebemos uma semelhança imensa entre os discursos dos ganhadores e dos derrotados. Os primeiros engrandecem a população, bajulam a escolha feita, demonstram toda a felicidade. Já os derrotados sempre procuram uma forma de justificar o fracasso e na maioria das vezes culpam o povo pela sua incapacidade de saber escolher.
Agora, precisamos reconhecer que ao escolher não podemos garantir que nossas escolhas se efetivaram em sucesso ou fracasso. Muito menos deveríamos ser julgados por nós mesmos, caso contrário a democracia vai perdendo o sentido.
Escolher não é sinônimo de acerto ou derrota, mas é apostar. Ainda mais no Brasil que na maioria das vezes sempre estamos escolhendo aquele que acreditamos ser o menos pior. Uma sina de uma democracia que vive seu processo de construção. Assim, o ganhador que não governa para todos e o derrotado que não aceita a derrota, no fundo transformam a democracia em uma ditadura disfarçada, pois só quer contemplar o seu grupo. E isto é inconcebível.
Acredito que a pior derrota para a democracia seria a unanimidade, pois com ela perde-se a discussão, o contraditório, a possibilidade de mudança, gera-se um quadro de dominação, de perpetuação do poder, de controle de tudo e de todos.
O maior legado da democracia é acreditar que quem perdeu hoje, pode ser o grande vencedor amanhã e vice-versa. A democracia permite a alternância de poder, algo muito benéfico e salutar para qualquer sociedade. Acreditar nestas possibilidades é o que faz a democracia existir e perdurar.
Num país em que seus habitantes dizem defender a democracia, respeitar a escolha do outro, torna-se uma atitude democrática. Como diria ironicamente Millor Fernandes: “democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim”. Só não esqueçamos que a escolha não nos redime de sermos cidadãos. E isto implica em ter zelo, em aplaudir e/ou, se for o caso, a coragem de cobrar e reconhecer que a escolha foi equivocada, que não se traduz naquilo que se esperava. Afinal, no futuro poderemos escolher novamente na esperança de acertar.
É professor e escritor*