O médico e professor Fernando Herkenhoff, o psiquiatra Sérgio Vellozo Lucas (irmão de Luiz Paulo), o empresário do setor de saúde Adão Cellia, o cientista político Fernando Pignaton, o dentista e especialista no SUS Adauto Emmerich... O que esses nomes têm em comum? A resposta: o passado, o presente e o mesmo pensamento para o futuro imediato da política nacional e capixaba.
No passado, a história de todos se une em torno da militância clandestina que tiveram no Partido Comunista Brasileiro (PCB), nos anos 1970, durante a ditadura militar. Essa é a origem em comum das respectivas trajetórias políticas. Ao lado de nomes como o do governador Paulo Hartung e outros até hoje ligados ao governador (Neivaldo Bragato, por exemplo), esse grupo ligado ao Partidão também foi protagonista da rearticulação do movimento estudantil na Ufes.
Foi a geração que, há cerca de 40 anos, reabriu o Diretório Central dos Estudantes, a partir da junção dos núcleos do Centro de Biomédicas (Herkenhoff, Pignaton, Emmerich etc.) e do Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas (CCJE), do qual faziam parte Hartung, Bragato, entre outros. “O Partidão fez uma renovação democrática no Espírito Santo. Aonde você for no Estado, você vai ver um membro dessa geração, marcada pela luta pela democracia”, afirma um dos personagens desta história.
Já no presente, remanescentes dessa velha guarda do Partidão, não mais filiados à sigla nem integrados ao núcleo político de Hartung, voltaram a se articular, em um fórum ao qual chamam “Esquerda Democrática”. Mais do que promover debates – geralmente no apartamento de Cellia, na Praia do Canto –, eles terão lado na eleição: o da democracia. Isso vale para a disputa a governador do Estado, na qual também pretendem exercer a sua pequena cota de influência.
Pensando nisso, os integrantes do grupo já se reuniram com o prefeito da Serra, Audifax Barcelos (Rede), com o vice-governador César Colnago (PSDB) e, ontem, receberam o ex-governador Renato Casagrande (PSB). O principal líder intelectual do movimento é Herkenhoff, filiado ao PPS (ramificação direta do PCB) e membro do conselho político nacional do partido, embora bastante afastado politicamente do prefeito de Vitória, Luciano Rezende (PPS).
Em termos práticos, a influência do grupo já pôde ser sentida, por exemplo, na surpreendente decisão de Luiz Paulo de sair do PSDB para ingressar no PPS. Com seu irmão, o ex-prefeito de Vitória participou de encontros do fórum recentemente. Diga-se de passagem, a origem política do próprio Luiz Paulo também remonta ao PCB, ao qual aderiu em 1974, no Rio de Janeiro, enquanto aqui os já citados companheiros reabriam e reoxigenavam os diretórios acadêmicos na Ufes.
Cabe ressalvar que nenhum dos cabeças-brancas reunidos nesse fórum tem voto, muito menos pretende lançar candidatura. O que possuem de sobra é memória, estofo teórico, capacidade de análise e de formulação política. Sempre agiram nos bastidores, como conselheiros e estrategistas políticos – alguns deles, inclusive, do próprio Hartung, dos tempos de PCB até meados dos anos 2000, quando o expoente daquele movimento chegou ao Palácio Anchieta. Desde então, houve um distanciamento entre Hartung e esses antigos companheiros. Agora, em 2018, eles querem colocar sua bagagem a serviço de candidatos que representem o campo de centro-esquerda, defendendo acima de tudo valores democráticos, os quais consideram estar ameaçados em razão de posições autoritárias que têm ganhado eco em parcelas da sociedade.
Com relação a Hartung – repita-se: também produto desse mesmo caldo histórico e político –, os membros da “Esquerda Democrática” não lhe fecham as portas, mas hoje mantêm ressalvas quanto à postura assumida pelo governador. Muito reservadamente, entendem que, após a prática de quase 12 anos no poder, o “Paulo” tem consolidado um afastamento daquele movimento histórico de renovação democrática do qual fez parte.
História em comum
No processo de reabertura do movimento estudantil da Ufes, o então estudante de Medicina Fernando Herkenhoff foi um dos pioneiros de fato e a primeira grande referência do movimento. Depois veio Paulo Hartung, então aluno de Economia, que se juntaria ao movimento na safra seguinte de estudantes com pé no comunismo à época e que sucederia Herkenhoff (quatro anos mais velho) na liderança do grupo.
Unidos no passado
Com apoio de Herkenhoff, Hartung foi eleito primeiro presidente do DCE, no fim de 1977. Fernando Pignaton foi o vice. “Vimos neles duas novas lideranças promissoras. E, como já estávamos nos formando, precisávamos de alguém que desse continuidade ao movimento”, explicou Herkenhoff, em reportagem de A GAZETA publicada em 2009. O médico foi professor do Programa de Pós-graduação em Ciências Fisiológicas da Ufes.
Distantes no presente
Há alguns anos, porém, houve um distanciamento. E o comportamento político assumido por Hartung no poder gera, hoje, algumas críticas veladas por parte de antigos companheiros da velha guarda do PCB. Ninguém quis aparecer nesta coluna. Sob anonimato, acham que o ex-líder do grupo está indo por um caminho excludente, da monopolização e do monocentrismo político. “No Espírito Santo, o Paulo está cada vez com compromissos menores com a história dessa geração marcada pela luta democrática”, opina um deles.
“Intervenção branca”
Criticam, ainda, o que veem como tentativa de controlar instituições e partidos. “Fez uma intervenção no PSDB para jogar Luiz Paulo e Max Filho para escanteio”, exemplifica um dos ex-“camaradas”.
Contextualização
Aqui cabe um flashback histórico. Alguns podem até se perguntar: mas se esses caras eram (não são mais) do PCB, como defendem a democracia? Como explicam os próprios, mesmo no auge de sua militância clandestina, durante a ditadura militar, essa turma defendia que o único caminho para a implantação do comunismo no Brasil era através da democracia. Não defendiam a “revolução do proletariado”, tampouco qualquer alternativa que passasse por pegar em armas – diferentemente, por exemplo, do PCdoB, motivo da cisão entre os dois partidos clandestinos.
No Brasil, os partidários do PCB aproximavam-se muito mais do pensamento do Partido Comunista Italiano (PCI) e de outros partidos eurocomunistas. Por isso, eram chamados de “reformistas”, pejorativamente, pelos adversários internos na esquerda.