Muito provavelmente, as eleições de 2018 ficarão marcadas na história da ainda jovem democracia brasileira. Jovem, pois tem muito a crescer, principalmente se tomarmos como seu ponto inicial o fim do regime militar em meados da década de 80. Se prevaleceu, e ainda deverá prevalecer no segundo turno, o sentimento ante a razão, isso devemos entender e compreender como fazendo parte do processo de aprendizado coletivo. É parte do processo de amadurecimento. É sintoma da força da democracia.
Pensando bem, já consumado o primeiro “round”, no entanto, começo a alimentar a percepção, que na verdade se aproxima também à dúvida, de que os resultados que saíram das urnas podem, sim, estar expressando mais a razão do que o sentimento. O que quero com isso dizer é que existiram e naturalmente ainda existirão razões objetivas e materializáveis que podem ter servido de justificativa e motivação no direcionamento dos eleitores.
Observando os resultados numa visão panorâmica vamos perceber um movimento caracteristicamente de massa, acionado sobretudo pela classe média urbana, ou seja classes A, B e C, e mais fortemente nas regiões Sul, Sudeste, Centro Oeste e Norte. Regiões onde Bolsonaro e as forças mais à direita e ao centro cresceram fortemente, inclusive com reflexos profundos nas composições do Senado e da Câmara. Em vários casos, de forma até surpreendente. Vitórias contadas como certas simplesmente desmancharam-se no ar.
É momento para indagarmos por quais razões essa classe média fez e parece estar ainda disposta a fazer esse movimento. Não podemos esquecer que esse mesmo contingente encontrava-se feliz da vida quando o “foguete” Brasil parecia decolar com desenvoltura e força em direção ao crescimento e desenvolvimento. Mas também já percebia, e os protestos de 2013 já demonstravam isso, que o que estava sendo prometido começava a não ser entregue. Já era sintoma de frustração, que acabou desandando para a descrença e a desilusão com a crise econômica e política.
No fundo, portanto, o que se está colhendo agora resulta de uma combinação de dois fatores básicos, imbrincados por natureza e construção: economia e política. Do lado da economia vamos constatar que nunca na história deste país tivemos, numa sequência de oito anos, um crescimento anual médio tão pífio: 0,7% ao ano. Resultado: 13 milhões de desempregados e sem perspectivas visíveis, muito menos tangíveis. Do lado da política, o que temos é o descompasso, e pior, o descolamento dos políticos, mas principalmente das suas lideranças, em relação às novas demandas e anseios da população. Esta última não se vê representada; ao contrário, simplesmente desamparada.
No segundo turno, as razões que guiaram o primeiro muito provavelmente estarão mantidas.