Éimpossível não se comover com o desabafo do cabeleireiro Ronaldo Andrade. Dez anos após perder a família num acidente provocado por um motorista comprovadamente alcoolizado, a indignação e o lamento estão evidentes em suas palavras: “Ele continua solto, e eu, preso. Preso no passado”.
Uma década de espera por justiça é a comprovação de que, quando ela tarda, é sinal de que ela já falhou, diferentemente do que sentencia o ditado popular. Como está expresso na declaração do cabeleireiro, os punidos pela demora tão dolorosa acabam sendo os familiares das vítimas, desamparados e descrentes de que a lei seja realmente para todos. A celeridade é até mesmo um sinal de respeito.
O caso do empresário Wagner José Dondoni de Oliveira, acusado de matar a família de Ronaldo, ao provocar um grave acidente na BR 101 em 20 de abril de 2008, é exemplo da leniência que só beneficia os acusados. A tragédia ocorreu meses antes de a Lei Seca entrar em vigor no país. É emblemático que a embriaguez de Dondoni tenha sido comprovada, e até hoje não tenha havido julgamento. Mostra que aqueles com poder econômico suficiente para recorrer podem até mesmo levar o processo à prescrição, nos casos em que ela seja possível.
Enfim, o réu vai a júri popular, ainda sem data marcada. Como não há mais recursos, a família das vítimas e a sociedade poderão em breve virar essa página. Mas a marca da lentidão da Justiça permanece indelével.
Nada será capaz de aliviar a dor da perda de Ronaldo, que desde então convive com a saudade da esposa e dos dois filhos mortos no acidente. A justiça nessa situação é mais que um alívio: é a chance de um recomeço para quem já sofreu tanto.