Todos sabem que o verão, na nossa região, é o tempo das chuvas torrenciais, período que se inicia em novembro e vai até fevereiro. No Norte e Nordeste do Brasil, é o contrário. O inverno deles é o tempo das águas. Passamos por um período longo de estiagem, mas agora o clima parece ter voltado ao que era antes.
Final e começo de ano, período que coincide com as férias escolares, é também a época de muito calor e de muita chuva. Lembro-me, com saudades, da infância no Caparaó e, em casa de férias, víamos da varanda de casa o rio volumoso e íamos marcando o quanto ele subia por dia. Papai fez uma varanda alta, de onde podíamos avistar com segurança a água que subia, a cada dia mais.
Nosso divertimento, sem poder sair de casa, era visualizar o que descia na correnteza. Quando avistávamos um boi ou burro afogado descendo pela enchente, era motivo de surpresa e de encantamento. Assim como as traves do campo de futebol, no quintal de casa, eram o limite de comparação.
“Nesse ano, a água passou por cima, ou quase”, dizíamos. Nunca me lembro de ninguém ter morrido na enxurrada. Era uma comunidade pobre, nossas casas eram humildes, mas seguras. Tempos depois, voltei à minha terra natal, e onde era o campo de futebol e a vargem onde se plantava milho e feijão, tudo tinha virado rua calçada e o grande rio de minha infância tinha ficado mirrado e espremido entre casas e ruas.
Por isso, não me surpreendem as imagens de hoje, ao ver ruas e casas alagadas. Tudo isso era ocupado pelas águas, na época das chuvas. Hoje, não é diferente. E isso aconteceu não só com Ibitirama, mas com todas as cidades construídas à margem de rios, desrespeitando-se o limite de distanciamento necessário à expansão das águas.
Lembro-me de grandes enchentes no passado, no mês de janeiro, dentre elas, a de 1966, que levou meu pai, não pelas águas, mas pela imprudência, e a de 1979, que causou muito estrago em Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo, como agora. Estudava em Belo Horizonte e levei uma semana para chegar a Cachoeiro, onde morava, e a Vitória, onde estava minha família, de carona, pois estradas e pontes foram destruídas pelas águas.
Belo Horizonte é a primeira cidade planejada do Brasil e, para erguê-la, foram canalizados 200 km de córregos que cortavam a cidade. O esgoto dessa grande cidade é jogado nesses córregos canalizados. Hoje, quando chove, a água não tem por onde correr e, por isso, inunda ruas, garagens, praças. Em poucos minutos de chuva, tudo alaga.
O fétido córrego Arrudas que corta a cidade, como o nosso Canal da Costa, em Vila Velha, vira um rio de água lamacenta. Em dezembro de 1986, quando defendi minha dissertação de mestrado, saí da UFMG com água no joelho até o ponto de ônibus que ia pra rodoviária, também inundada.
Em 1990, quando defendi o doutorado, também em dezembro, foi a mesma coisa. Diz a previsão meteorológica que, em fevereiro, tem mais Zaca, Zona de Convergência do Atlântico, como dizem, que vem se juntar à Zica trazida pelo mosquito da dengue. E a natureza não tem culpa de nada. Ela faz a sua parte. Nós é que não estamos fazendo a nossa como deveríamos.