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Samba

A Novo Império contra-ataca e espalha o ódio e a razão

A escola de samba mostrou um toque de genialidade. Trouxe à realidade a consciência, os conscientes, as vítimas, a força e a sobrevivência

Publicado em 25 de Fevereiro de 2020 às 05:00

Públicado em 

25 fev 2020 às 05:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

paulobonates@uol.com.br

Novo Império leva o universo infantil para a avenida Crédito: Rodrigo Gavini
No instante em que escrevia essas mal traçadas linhas, não havia saído ainda o resultado dos desfiles das escolas de samba de Vitória. Mas o meu resultado já. Tipo amor à primeira vista. Trata-se da Novo Império, cuja sede é bem no meio da rua, no centro da fome.
Em priscas eras, saí em várias escolas no Rio e sei de cor a maioria dos belos sambas-enredo de lá. No desfile de sábado, aqui em Vitória, fiquei pela primeira vez na torcida bem de cara para o desfile. Vivo aqui há muitos anos nesta delícia de Ilha e tenho frequentado os ninhos de samba, no centro da cidade, nos bairros, nas praias e alhures.
No meu modesto entender, os sambistas de Vitória não devem nada, absolutamente nada, aos do Rio, por exemplo. Lembro agora do Catita e de seus toques mágicos no tamborim no meio do ritmo na Curva da Jurema.
(Paulo, não sai do assunto, grita neste instante meu superego castrador).
Pois então, de volta ao desfile. Para citar um exemplo: havia um carro alegórico, tipo jaula, da Novo Império, que mostrou um toque de genialidade. Trouxe à realidade a consciência, os conscientes, as vítimas, a força e a sobrevivência. Lembro de um samba do Wilson das Neves, que explodiu já faz tempo e que começa assim: “Quando o morro descer e não for Carnaval....”. Faz um resumo histórico e uma premonição em pleno samba de raiz, especialmente sobre uma ferrenha e silente desarticulação interna entre poderosos e miseráveis.
Não deu outra, não deu outra.
(Paulo, volta tu ao assunto).
Ordena de novo esta voz interna e ordeira que teima em não obedecer. Mas desta vez volto para o fenômeno musical capixaba. A bateria – eu nunca havia presenciado isso antes - tocava, cantava, falava e silenciava um samba lindo, cuja performance atravessava de propósito a harmonia, incluindo um grito que cortava as notas e o coração.
Vi muita gente lagrimando. Deve ter sido o barulho. O barulho das nossas consciências e apatia. Afinal, tratava-se da guerra anunciada. Deram tanta porrada que chegou a doer, mesmo com o conteúdo embalsamado de razão.
O pessoal que empurra aquele peso todo dos carros alegóricos fazia isso cantando e dançando. Havia em cada olhar inteligência e, como diz a letra, resiliência, que é, como se sabe, a capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças.
Para respirar, entre uma ala e outra, lindas e belos passistas evoluindo – em todos os sentidos – em um só conjunto harmônico, com um ritmo que parava, mudava de andamento, calava e, principalmente, dizia.
Respeitável público, deixo para a dedução de vocês o restante da letra da Novo Império. Vai aqui um pedacinho dela, não quero ficar emocionado sozinho.
“Por onde anda o sorriso do seu rosto, está exposto em cada capa de jornal, abandonado, adormecido nas calçadas, malabarismo, trocado no sinal. São tantas vidas esquecidas pelos cantos (...) Resiliência pra vencer os opressores (...) Um país de todos pra criança também (...) Quero soltar pipa, jogar bola, abraçar a juventude. De pai pra filho, a herança ficou. Vem ver guri, brilha o império na avenida”.
Este hino é também para ilustrar a miséria que passa de pai para filho, não é de hoje.
Dorian Gray , meu cão burguês, finge que não entendeu o recado.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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