“Quando a paisagem física e humana que nos serve de referência é precocemente dividida (...), a alteração que se dá no mundo e o modo como ele se reorganiza e recompõe é, muitas vezes, para os que sobrevivem, uma espécie de morte que precede um segundo nascimento” (Rio Homem, André Gago)
Em 1755, Lisboa sofreu um terrível terremoto que devastou praticamente toda a cidade. Estima-se que quase um terço da população que habitava a cidade à época tenha morrido, tanto durante o abalo como nos dias seguintes à tragédia.
O século XVIII é marcado por profundas transformações na sociedade Ocidental, principalmente no âmbito europeu, naquilo que se convencionou chamar de Iluminismo, e que, de certo modo, culmina na Revolução Francesa. Assim, à destruição de Lisboa, seguiu-se um ambicioso projeto iluminista a cargo do Marquês de Pombal de reconstrução da cidade segundo linhas racionalistas.
Além da questão urbanística, os novos edifícios da Lisboa pombalina também foram construídos de forma que sua arquitetura resistisse a novos abalos sísmicos, graças a uma malha estrutural em madeira justaposta às paredes de alvenaria, ou seja, uma verdadeira inovação para a época.
Para nós brasileiros, porém, lamenta-se que a nova cidade surgida dos escombros, tenha sido viabilizada economicamente com a riqueza extraída de Minas Gerais, Estado que agora também apresenta várias cidades destruídas, mais uma vez pela força da natureza. E assim como nossos vizinhos mineiros, o Espírito Santo é outro Estado que teve cidades devastadas por fortes chuvas, seguidas de enchentes dos rios, deslizamentos, águas barrentas, fedidas, e até saques, mas, neste caso específico, o culpado é o ser humano mesmo.
Não obstante, se o homem não foi quem provocou os impressionantes temporais recentes que caíram em boa parte do Sudeste, a ele se pode responsabilizar pelo modo como estreitou os rios, ocupando suas margens e jogando lixo neles, e por onde a forte água enlameada passou carregando e destruindo tudo que via à sua frente.
E também é certo que nada é tão destrutivo para as cidades como as guerras. E aí, é claro, todos sabemos que o culpado não é nem o mordomo nem a mãe natureza. Tampouco serve de consolo para os brasileiros saber que nunca tivemos uma guerra em nosso território, afinal, uma vez ocorrido o desastre, seja ele natural ou não, resta pensar como agir daí em diante (na história da destruição de cidades, ainda há aquelas alagadas por lagos de hidrelétricas e até mesmo pela lama, como ocorreu com Bento Rodrigues, também em Minas Gerais).
E é essa a tarefa dos governos federal, estaduais e municipais e, até mesmo da população atingida: encontrar os meios para recomeçar, que incluem traçar planos, buscar recursos, realizar obras, mas já tendo a clareza de quais intervenções poderiam ter sido feitas que pudessem ter evitado algo tão dramático como foi a tragédia das últimas semanas.
A água é um bem da natureza, pois sem ela não há vida. Em demasia, porém, pode provocar tragédias, do mesmo modo que sua escassez é preocupante, podendo até mesmo causar mortes. Ao longo da história, várias civilizações aprenderam a lidar com a água, retendo-a em períodos de estiagem, desimpedindo sua passagem quando ela vem com força.
Com o Iluminismo, por exemplo, a Ciência e outras disciplinas do conhecimento, como a Filosofia, ganharam ênfase no desígnio da razão humana, ao contrário do que parece acontecer nos dias atuais, quando um certo sectarismo vem tomando conta de determinados setores da sociedade.
Que a reconstrução das nossas cidades se revista daquele espírito empreendedor e inovador que marcou os intelectuais iluministas! E que em breve possamos (re)ver nossas cidades prontas para abrigar a vida humana em consonância com a nossa mãe natureza!