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De São Gabriel para o mundo

Como o conilon chegou e transformou o ES em potência mundial na produção de café

A história que começou no século XVIII rende ao Estado atualmente os títulos de pioneiro e referência. Se o assunto é café conilon, o Espírito Santo preenche boa parte das páginas desse livro

Publicado em 03 de Setembro de 2023 às 00:01

Alberto Borém

Publicado em 

03 set 2023 às 00:01
Aroma Capixaba
Primeira sede administrativa Cooabriel, em São Gabriel da Palha Crédito: Divulgação/Cooabriel
Para que uma árvore cresça de forma saudável e dê bons frutos é preciso, necessariamente, um acompanhamento próximo do produtor. O crescimento e a expansão do cultivo de café conilon no Espírito Santo envolvem, no entanto, muito mais do que uma terra fértil e interesse econômico.
Em meio a problemas financeiros e à criação de uma importante cooperativa capixaba, houve até influência do Papa João XXXIII. A história que começou no século XVIII rende atualmente ao Estado títulos de pioneirismo e referência. Se o assunto é café conilon, o Espírito Santo preenche boa parte das páginas desse livro.
Como o Conilon chegou e virou potência no ES
Atualmente, segundo números do governo do Estado, seis em cada dez sacas da variedade produzidas em todo o Brasil, saem do Espírito Santo. O grão é um produto de extrema importância para a economia capixaba.
Em 2022 foram produzidas mais de 12,4 milhões de sacas de café conilon no Espírito Santo. Reunindo todas as lavouras, de Norte a Sul, a área de produção foi superior a 259 mil hectares, o equivalente a 259.174 campos de futebol.
Mas como um Estado com uma área geográfica tão pequena, se comparado a Minas Gerais e São Paulo, por exemplo, é tão significante na produção de café?

Ciclo do café

Os livros de história contam que, apesar de tão predominante no tema, o Brasil não é o local de nascimento do café. O grão, originário da Etiópia, chegou ao país em 1727. O Brasil teve o chamado "ciclo do café", período em que o cultivo foi a principal atividade econômica brasileira. Entre 1800 e 1930, era o café quem tomava conta da cena.
O presidente do Sindicato da Indústria do Café do Estado do Espírito Santo (Sincafé), Egídio Malanquini, lembra que o grão foi plantado no início do século XX em terras capixabas, mas sem a relevância que atualmente apresenta. O governo de Jerônimo Monteiro (1908-1912) é lembrado como um pontapé inicial para cultivo no Estado. Há mais de 100 anos, Cachoeiro de Itapemirim, no Sul do Espírito Santo, era o centro das atenções.

12,4 milhões de sacas

Esta foi a produção do ES de conilon em 2022
O café virou uma febre tão grande no país que foi necessário criar um plano nacional para erradicação de algumas lavouras. Naquele momento, a oferta de café produzido era muito maior que a demanda interna. Isso gerava, por exemplo, queda no preço. Um grão que havia garantido grandes lucros anos antes, naquele momento, era visto como um problema. O plano de erradicação durou entre 1962 e 1967.

Em meio à Guerra Fria, Papa pede paz na terra...

Uma encíclica do então Papa João XXXIII foi determinante para a expansão do cultivo do café no Espírito Santo. A quilômetros de distância, enquanto os brasileiros sofriam com a extinção das lavouras de café, a preocupação do representante da Igreja Católica era outra: o contexto internacional dominado pela ameaça nuclear.
Foi o medo de um conflito armado entre Estados Unidos e União Soviética, que naquela época travavam a Guerra Fria, que motivou o Papa João XXXII a escrever a encíclica "Pacem in Terris" - em tradução livre, "paz na terra". A carta publicada em abril de 1963 pela Igreja Católica tratava de verdade, justiça, caridade e liberdade. O papa chamou a atenção para o bem comum e o desenvolvimento da comunidade.

... e o recado foi ouvido no Espírito Santo: funda-se a Cooabriel

Para o presidente da Cooperativa Agrária dos Cafeicultores de São Gabriel (Cooabriel), Luiz Carlos Bastianello, a relação entre a encíclica do Papa e a fundação da Cooabriel é direta. Ele explica que o contexto da época foi determinante para que a cooperativa fosse formada na cidade do Norte do Espírito Santo.
"A fundação da Cooabriel aconteceu após sugestão da Igreja Católica. A ideia naquele momento era que a formação de uma cooperativa aliviaria bastante alguns gargalos da sociedade. Havia um problema comum e o cooperativismo era uma solução. Era uma questão social"
Luiz Carlos Bastianello - Presidente da Cooabriel
O recado enviado pelo Papa João XXXIII foi ouvido por muitos, entre eles, o padre Simão Civalero, então pároco de São Gabriel da Palha, responsável pela criação da Cooabriel. O religioso já promovia reuniões e cursos de cooperativismo, como forma de buscar soluções para os desafios dos produtores.

60 anos

É o tempo de existência da Cooabriel, que foi criada em 13 de setembro de 1963
A fundação da Cooabriel aconteceu no dia 13 de setembro de 1963, meses após a emancipação da cidade que dá nome à cooperativa. A história da cooperativa se relaciona diretamente com a história do município e do cultivo de café no Espírito Santo. A criação da cooperativa abriu caminho para a expansão do café no Estado.

Incentivo ao conilon

O marco importante de fundação da Cooabriel não livrava os produtores rurais da difícil situação vivida na economia naquela época. De acordo com Bastianello, a cidade estava em um momento “delicado” economicamente falando.
Foi então que, no início da década de 1970, o então prefeito Dário Martinelli teve a ideia de incentivar o plantio de café conilon. O prefeito chegou a ser presidente da Cooperativa anos depois e é considerado o "pai" do conilon no Estado. A ideia dele mudou para sempre a história do Espírito Santo, sobretudo de São Gabriel da Palha.
Aroma Capixaba - Pauta 1
O ex-prefeito de São Gabriel Dário Martinelli, que morreu aos 82 anos em 2015, teve papel de destaque no crescimento da cultura do conilon no ES Crédito: Divulgação/Prefeitura de São Gabriel da Palha
Luiz Carlos Bastianello reforça que, apesar do bom resultado obtido, anos depois, o conilon era visto de forma negativa. Ainda segundo o presidente, outra variedade já havia sido plantado na região. Mas por questões climáticas na cidade, que tem temperaturas mais altas, não houve sucesso.
"Até aquele momento, o conilon era muito rejeitado pelo mercado, era tido quase como um veneno", afirma o atual presidente da Cooabriel.
Aroma Capixaba - Pauta 1
Primeiro armazém de café da Cooabriel recebendo a produção dos cooperados da região Crédito: Divulgação/Cooabriel
A cooperativa iniciou as atividades com a abertura de uma mercearia para atender cooperados nas necessidades básicas. Bastianello lembra que a organização chegou a comercializar mandioca. Foi a necessidade financeira que ditava o ritmo da cooperativa, que se estruturou e se tornou referência em todo o Estado ao longo dos anos.

Linha do tempo do café no ES

  • 1910 - O café já havia chegado ao Espírito Santo e era uma atividade lucrativa. Quem recebia um pedaço de terra recorria ao café para ter renda uma vez por ano.
  • 1958 - É fundado o primeiro sindicato relacionado ao café no Espírito Santo.
  • 1962 - Início do plano do governo federal para erradicação do café. Oferta era maior que demanda, o que gerava prejuízo na economia.
  • 1963 - Fundação da Cooabriel, em São Gabriel da Palha.
  • 1967 - Fim do plano do governo federal para erradicação do café.
  • 1973 - Fundação da Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC). De acordo com especialistas, a fundação colaborou com o desenvolvimento do setor.
  • Década de 1970 - Por incentivo de Dário Martinelli, o conilon começou a ser plantado amplamente na região de São Gabriel da Palha.
  • 1985 - Café conilon chega a custar dois salários mínimos. Ocorre valorização do grão.
  • 2021 - ES conquista IG de Indicação de Procedência para o conilon.

Potencialização da produção

A criação da Cooabriel repercute até os tempos atuais. No Espírito Santo, há cinco cooperativas que atuam diretamente no segmento da cafeicultura: Cafesul, Coocafé, Coopbac e Nater Coop completam a lista.
Diversas tecnologias estão entrando nas fazendas de café para tornar o produto mais sustentável
Diversas tecnologias estão entrando nas fazendas de café para tornar o produto mais sustentável Crédito: Divulgação
No entendimento do secretário de Estado da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag), Enio Bergoli, foi a Cooabriel que abriu espaço e pavimentou o caminho para os outros grupos. Bergoli valoriza o trabalho feito há 60 anos.
"O café apenas entrou no Espírito Santo no início do século XX, mas a produção era muito pequena. Foi a partir do que aconteceu em São Gabriel que a produção cresceu, com o auxílio de pessoas que foram muito arrojadas. Nos últimos 50 anos, o Espírito Santo se tornou esta potência na produção de conilon"
Enio Bergoli - Secretário de Estado da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca
Ainda segundo o atual presidente da Cooabriel, a cooperativa funciona como um termômetro para a cidade, que é referência nacional na cotação diária do conilon. 
"Alguns chegam a dizer que a cidade sem a cooperativa não pararia de pé. Não é apenas sobre lucro, mas melhoria das condições de vida das pessoas. O crescimento precisa ser junto, é o ponto chave", afirma.
Somente a Cooabriel reúne 7 mil cooperados, segundo números da própria organização. De acordo com o Sistema OCB/Espírito Santo, as cinco cooperativas que atuam diretamente no cultivo de café no Estado somam mais de 30 mil cooperados.

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