
Marcilio R. Machado*
A população brasileira tem assistido, estarrecida, os acontecimentos que abalam o país de uma maneira contínua. Sem retroceder muito no tempo, gostaria de iniciar rememorando o impeachment da ex-presidente da República Dilma Rousseff por desrespeito à lei orçamentária e à lei de improbidade administrativa. Em seguida, tivemos a prisão do ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, acusado de receber propina de contrato de exploração de petróleo. Essa lista continua e envolve também a prisão de um ex-governador do Rio de Janeiro, de outro ex-presidente da República, de ex-ministro da Fazenda, de empresários e de muitos outros políticos.
Recentemente, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou à revista “Crusoé” e ao site “O Antagonista” que fosse retirada do ar a reportagem intitulada “Amigo do amigo de meu pai”, que cita o presidente da Suprema Corte, Dias Toffoli. A revista repudiou a decisão e denunciou o caso como censura. Alexandre impôs uma multa diária de R$ 100 mil em caso de desobediência. Tal determinação provocou a reação de vários membros da sociedade, tais como a Procuradoria-Geral da República, a Associação Nacional de Jornais, a Associação Nacional de Editores de Revistas e advogados, que criticaram a medida, pois ela representa uma grave ameaça à liberdade de expressão, que é vedada pela Constituição brasileira.
Os acontecimentos atuais fizeram com que eu retomasse a leitura do livro “Cândido” (ou “O Otimismo”), de Voltaire. O conto narra a estória do jovem e ingênuo Cândido, que, morando num castelo, parecia viver no melhor dos mundos e era apaixonado, secretamente, pela filha do barão. Lá, o jovem alemão é apresentado à Pangloss, seu mentor e professor de metafísica que lhe ensina que tudo que acontece é o melhor. Até que um dia, ao ser pego em flagrante pelo pai, beijando a sua amada, é expulso do paraíso e seus problemas começam.
Numerosas aventuras cruéis e exóticas lhe conduzem a Buenos Aires, Constantinopla, Portugal e América do Sul. Cândido contabiliza inúmeras frustrações, descobre o mundo e vai de decepção em decepção – uma analogia ao Brasil de hoje. A certa altura, Pangloss diz a Cândido que se ele não tivesse sido expulso de um lindo castelo, a pontapés no traseiro, se não tivesse sido preso pela inquisição, se não tivesse percorrido a América a pé, se não tivesse enfiado a espada no irmão de sua amada, se não tivesse perdido todos os carneiros na boa terra do Eldorado, ele não estaria agora comendo doce e pistache.
Cândido, depois de passar por grandes tragédias, teria perguntado a Pangloss: “Você ainda acredita que tudo que acontece é para o bem?”. A resposta imediata de Pangloss foi a seguinte: “Eu não costumo renegar o que falei“. Cândido retruca dizendo: devemos então cultivar nosso jardim.
*O autor é presidente do Sindicato do Comércio de Exportação e Importação do Espírito Santo (Sindiex)