
Fernando Bourguignon Pratti*
Não há nada pior para um país do que terminar as eleições dividido entre duas grandes correntes ideológicas antagônicas, justo no momento em que mergulhamos para o fim da fila do desenvolvimento. Terminamos o período eleitoral com IDH abaixo de 78 nações, entre elas o Chile, Panamá, Uruguai e Argentina, países estes que não possuem 1/3 de nossas riquezas.
Mas quando embarcamos nessa canoa furada se todos, como sócios do país, contribuímos com a nossa produção e o nosso dinheiro? Observo, na linha do tempo, que essa crise se instalou a partir do aumento da repressão ao aparelhamento dos recursos públicos.
Assim, a corrupção feriu de morte o presidencialismo de coalizão, onde políticos do Executivo e do Legislativo repartiam os ministérios, cargos e contratos entre os seus apadrinhados.
Chegamos a dois ex-presidentes presos e uma “presidenta” destituída, além de dezenas de líderes políticos condenados. Mas se todo esse impacto não restabeleceu a ordem no país, o que precisaremos destituir mais? Ou melhor, o que pretendemos reconstruir?
Enquanto seguimos nesse vácuo existencial, uma terceira força se une à oposição e se constitui em fiel da balança no país. O velho centrão assim ressurge em meio às cinzas do Congresso e tenta retomar as rédeas do poder central, sob tutela do grupo há mais de 30 anos. Nesta guerra pelo poder, Executivo e Legislativo acumulam fortes reveses e a população sofre atônita, bombardeada entre informações negativas e distorcidas.
O empresariado tenta segurar o último fôlego para sobreviver à “gravata de afogado”. Soluções viáveis estão na pauta do Congresso, mas o antagonismo político, a intolerância ideológica e o desprezo com o país vêm postergando o avanço de agendas positivas. A verdade é que falam muito em democracia, mas o que vejo é “sangue nos olhos”.
No passado, o caminho para o apoio político era a compra de poder. Porém, retomar dessas famigeradas estratégias do mensalão destruiria as últimas esperanças do eleitor e, parodiando São Francisco de Assis, onde não vigora a esperança haverá desespero. E, neste momento surreal, lembro das palavras de um célebre amigo, o dr. Ulisses Guimarães, ao comentar a derrota para Fernando Collor de Mello nas eleições de 1989: “Na democracia, cabe aos vencedores a responsabilidade de governar o país e aos perdedores o dever de colaborar com o desenvolvimento da nação”. De minha opinião, ou nos juntamos para retirar a água da canoa ou afundaremos coletivamente.
*O autor é engenheiro agrônomo e servidor público