Marcos Alencar*
Não sei a partir de quantas fruteiras um pedaço de terra pode ser chamado de pomar. Se você não é íntimo dos quintais, eu posso lhe ajudar. Não é preciso bater à porta do Google. Esta empresa fundada por Lary Page e Sergey Brin é fantástica, mas o lugar mais aproximado de um pomar onde eles conseguem chegar não tem formiga, caixa de maribondo, sanhaços, sabiás, uma arapuca no chão pra pegar rolinha e um possível canivete perdido.
Desde a infância até a adolescência entrei e saí de pomares com a mesma frequência com que faço hoje em dia uma moqueca de siri. Ou seja, volta e meia. Desde os grandes pomares, como os da antiga usina de cana-de-açúcar Santa Isabel, no norte fluminense, assim como o da fazenda Cascata, de Rosalvo Terra Lima, e o de dona Melina Leite - esses no município de Mimoso do Sul. Além de alguns mais modestos, mas também inesquecíveis, como os de Luizinho Teixeira, em São José do Calçado, o de João Lino, na fazenda de São Pedro, e o de Gilda Brandão, também em Mimoso.
Mesmo com essa doce experiência, nunca soube ao certo a razão dos pomares barrarem a entrada da melancia em seus cercados. Um pomar, por menos sortido que o seja, oferece suas mangas, jabuticabas, bananas, goiabas, romãs, pinhas, araçás, jenipapos, mexericas, tudo, tudo. Menos os ingazeiros - que preferem se debruçar sobre o leito dos rios - e esta delícia toda chamada melancia.
E por que tamanha discriminação? Por ser uma espécie rasteira? Um preconceito vegetal? Não creio. Inveja, pelo seu tamanho e doçura? Nunca soube que a inveja grassasse no ambiente frutífero.
É possível que um biólogo tenha uma explicação científica para este comportamento vegano, digamos assim. Mas, mesmo diante de uma possível verdade científica, não estou disposto a acreditar nela. E tenho cá minhas razões.
Vejamos. Desde que a ministra Damares confessou ter visto Jesus numa goiabeira, muita coisa mudou na minha visão de mundo. Veja bem, existem no mundo duas espécies de frutas. Aquelas que só têm um só caroço – abacates, jabuticabas, mangas, ameixas, abricós, por exemplo. E as parideiras, ricas em sementes. Como as pinhas, maracujás, goiabas, romãs e tantas outras. Estas guardam dentro de si uma organização de fazer inveja. A disposição das sementes é bem planejada, muito bem diagramada. Mas ao fazer as melancias, Deus lá de cima da goiabeira, já exausto, pegou um punhado de sementes, e tal e qual um adolescente bagunceiro, jogou de qualquer maneira pra dentro da fruta. “Se vira!”, disse Ele. E esparramou aquele montão de sementes, como confetes no carnaval. Sem se preocupar com a simetria, a ordem, uma esculhambação só. Uma verdadeira zona. Diante disso, as demais frutas, feitas no capricho e senhoras respeitáveis dos pomares, bateram a porta na cara das melancias. Não quiseram saber de gente relaxada no pedaço. E elas estão certas.
*O autor é cronista