A cidade capixaba Anchieta tem a sua origem ligada à aldeia jesuítica de Rerigtibá, termo de origem tupi que significa "muitas ostras", "ajuntamento de ostras", pela junção dos termos reri (ostra) e tyba (ajuntamento). A aldeia foi fundada pelo padre José de Anchieta em 1561, como local de catequese dos índios. O padre transferiu-se definitivamente para Reritiba em 1587, onde veio a falecer em 9 de junho de 1597 (passados 426 anos).
Nesse período, produziu grande parte de sua obra literária e dramática. Foi canonizado em 2014 pelo papa Francisco, jesuíta como ele. Tem o título de apóstolo dos índios. Ser um dos fundadores da cidade de São Paulo causa alguma controvérsia entre os historiadores, devido a ter apenas 19 anos, um noviço, que no máximo seria mero recruta de Manoel da Nóbrega, esse sim, o verdadeiro fundador.
Sua capacidade intelectual é indiscutível, capaz de redigir com fluência em latim, espanhol, português e basco e com extrema facilidade dominou a complexa língua tupi. Usava a linguagem para evangelizar e doutrinar. Muito mais que santo hoje, acredito que deveriam considerá-lo como um pioneiro dos escritores no Brasil.
Com a expulsão da Companhia de Jesus das terras portuguesas em 1759, a aldeia de Reritiba recebeu o foro de vila com o nome de Vila Nova de Benevente. Logo após a partida dos jesuítas, a vila passou por um período de decadência devido à desocupação da região pela maioria dos nativos. Em 12 de agosto de 1887, a vila foi elevada à condição de cidade, recebendo um novo nome: Anchieta, em homenagem ao famoso santo jesuíta que ali viveu e morreu no século XVI.
De fato, José de Anchieta ficou no Brasil pela impressão de suas digitais, presente em tantos lugares, sendo referência para atividades diversas. Percorreu matas, traçou caminhos, singrou mares, registrou viveres, mediou conflitos, selou alianças. Chegou estudante, peregrino incansável, focou a santidade, partilhou culturas, faleceu exaurido. Anchieta do Brasil. Anchieta da humanidade.
A vila tomou novamente impulso em sua economia a partir da chegada, pelo porto de Benevente, de milhares de colonos italianos entre os anos de 1874 e 1895. Da vila, surgiram, também, as atuais cidades de Alfredo Chaves, Piúma e Iconha. A economia da cidade de Anchieta baseia-se no turismo e na pelotização do minério de ferro, através da Samarco/Vale Mineração, que traz o minério na região de Mariana (MG) para ser pelotizado (beneficiado) nas suas duas usinas de pelotização em Ubu, bairro de Anchieta.
Toda essa história está contida no Santuário Nacional de São José de Anchieta, onde os fiéis e visitantes vão se surpreender com a grandiosidade e relevância da restauração finalizada em 2021, apresentando um novo conceito de museu, com centro interpretativo, comunicação interativa, que permite mais conhecimento e diálogo com a história do local. Esse santuário é um dos símbolos mais importantes da presença jesuítica no Brasil.
Afinal, seria José de Anchieta herói ou vilão? A sua canonização ainda causa polêmica. De um lado a Igreja Católica enaltecendo o seu trabalho missionário, do outro lado aqueles que apontam a violência do choque cultural entre os nativos e os conquistadores europeus.
Importante lembrar que o cenário de então era de batalha, “guerra santa”, no qual Anchieta foi um homem do seu tempo, com missão definida e acreditando nela, em uma época onde religião, economia e política se misturavam, formando um todo indivisível. Sua fé mariana era inigualável, isso todos concordam. A Maria Mãe de Deus apresentada por José de Anchieta é a da história, a da fé pascal, a da Igreja magisterial e a da piedade popular.
Todo o tempo José de Anchieta quis reconhecer o lugar único que tem Maria no processo de evangelização e, ao introduzi-la nas aldeias e missões, cercada dessas características, ele a entroniza no coração dos povos originários do Brasil, oferecendo a eles uma companheira insuperável como utopia que deu força ao seu projeto e sustentação à esperança do povo de Deus.