Assustados com o crescimento do movimento antifascista e com sua capacidade de arruinar os projetos de fortalecimento político e de reeleição, Trump e Bolsonaro tentam eliminá-lo da arena política. O deputado Daniel Silveira (PSL/RJ) deu prosseguimento, encaminhando uma proposta de alteração da Lei Antiterrorista para tipificar como “organização terrorista os grupos denominados antifas (antifascistas) e demais organizações com ideologias similares”.
Na prática, colocar-se como antiantifascista é o mesmo que se assumir fascista. De fato, há inúmeros relatos de grupos neonazistas na Europa e nos EUA que ostentam a suástica e há décadas se autoidentificam como antiantifas.
O antifascismo é muito mais amplo que a simples rejeição ao fascismo, embora a aposta liberal e legalista por um Estado Democrático de Direito, que respeita direitos e liberdades de todos e delimita o poder de ação dos governantes, é, por princípio, antagônica ao fascismo.
Mesmo sendo múltiplo, o movimento antifa tem se dividido basicamente entre marxistas e anarquistas, em confronto direto contra extrema-direita, o autoritarismo, o racismo, o sexismo, a homofobia e outras formas de opressão, conforme relata Mark Bray na obra “Antifa: o Manual Antifascista”.
Em contexto de ascensão da extrema-direita concomitante com a asseveração da violência policial contra negros no Brasil e nos EUA, é natural que o ativismo político encontre nesse movimento o respaldo programático e estratégico necessário para combater o inaceitável.
De acordo com o Anuário de Segurança Pública, 75,4% das vítimas de homicídios cometidos por policiais em 2018 no Brasil eram negros. Somos também 61,7% da população carcerária, de acordo com o Infopen, a agência estatística do Departamento Penitenciário Nacional.
Ao invés de combater esse racismo estrutural, a extrema-direita o tem estimulado. Seja com discursos e ações que degradam o respeito e a dignidade que se espera que todos tenham com os negros, seja com discursos e ações que apoiam homicídios cometidos por policiais, ou simplesmente pela inação diante de tantos abusos. Essa violência chegou a um nível insuportável, de modo que a revolta contra esse sistema cultural, econômico, político e jurídico que perpetua tal situação é agora o mais natural.
*O autor é doutor em Ciência Política e professor na UVV