Nestes últimos dias, ficamos estarrecidos com o caso da criança grávida após anos de estupro. O corpo dessa menina lateja as memórias da monstruosidade, cujas marcas apontam em direção a outros crimes apavorantes da história capixaba. Há 47 anos, Araceli Cabrera Crespo, 8 anos, foi raptada, drogada, violentada, morta, carbonizada e deixada em uma mata de Vitória.
Em abril de 2018, fomos surpreendidos com o brutal assassinato dos irmãos Joaquim, 3, e Kauã, 6, também violentados, mortos e queimados vivos. Diferentemente dessas crianças, a menina que passou nesta semana por procedimento abortivo sobreviveu e terá a chance de continuar lutando por sua vida neste perigoso e ameaçador mundo dominado por adultos.
Não bastasse o trauma irreparável, a menina e sua família foram obrigadas a suportarem a pressão e constrangimentos causados por supostos militantes “pró-vida”, os quais, motivados e acompanhados por políticos aproveitadores da extrema-direita cristã, invadiram sua casa, expuseram seu nome nas redes, mobilizaram religiosos para bloquearem o hospital onde ela estava e, por fim, foram capazes de criminalizá-la. Como entender tamanha irracionalidade?
Amós Oz pode nos ajudar nessa reflexão. Segundo ele, o fanático vive para garantir a redenção dos outros, mas não consegue se colocar lugar dele. Esse tipo de gente tem mais compromisso com a imposição cega e violenta da sua visão de mundo do que com aqueles que deseja salvar. São como os fariseus pintados na Bíblia, acreditam que as pessoas foram criadas para a lei e não o contrário.
O autor de “Como curar um fanático” afirma que o remédio para essa patologia social é a imaginação e a curiosidade, que levam a calçar os sapatos e vestir a pele dos outros. O antídoto seria, então, a empatia. Ademais, como explica o autor judeu, essas pessoas costumam valorizar respostas fáceis para questões complexas, facilitando a imposição de dogmatismos intolerantes. Por isso, esse grupo rapidamente relativizou o Código Penal e sentiu-se legitimado a sair determinando o que seria melhor para a vítima.
Os manifestantes que bloquearam a porta do hospital atrapalhando os demais serviços prestados às gestantes, ofendendo profissionais da saúde e acusando a instituição de ser um “antro de satanás” precisam de cura n’alma. Insanamente, sacrificaram no altar de sua ideologia perversa o pouco que sobrou dos direitos daquela criança. Ao violarem sua privacidade, intensificaram a tortura, tornando ainda mais difícil a vida da menina e de sua família.
Se realmente estivessem preocupados com a vida das crianças não apoiariam políticas e políticos vinculados a governos contrários às pautas dos direitos humanos, que inspiraram a existência do Estatuto da Criança e do Adolescente. Ou seja, a movimentação desses religiosos não tem nada a ver com fé cristã ou defesa da vida. É, na verdade, puro fanatismo.
*O autor é pastor, professor e doutor em Ciências da Religião