Em 1996, o chanceler Luiz Felipe Lampreia decidiu juntar as divisões de África, Ásia e Oriente Médio num só Departamento, cuja chefia me confiou. Nem bem me instalei nas novas funções e um grupo de embaixadores árabes pediu audiência para expressar estranheza diante do que consideravam uma manifestação de desinteresse do governo brasileiro, ao colocar sua região a reboque de outras duas. Levou algum tempo até persuadi-los de que a medida era de racionalização administrativa e não tinha conotação política negativa.
Quem me ajudou no diálogo com os diplomatas árabes foi o embaixador do Líbano, Ghazi Chidiac, que tinha evidente ascendência sobre seus colegas. Ghazi conhecia todo mundo em Brasília e viajava com frequência, Brasil afora, para encontrar-se com lideranças patrícias. Tentava demonstrar estatisticamente que havia 12 milhões de descendentes libaneses no Brasil, e ria quando eu retrucava “você tem sangue de negociante, dou-lhe 50 por cento de desconto e ainda ficamos com uma vez e meia a população total do Líbano”.
Concordávamos que a política externa brasileira deveria ter uma atenção especial para com o Líbano por pelo menos dois motivos. Primeiro, a importância da comunidade libanesa garantiria lastro político interno a iniciativas pró-libanesas. Segundo, a convivência harmoniosa, há mais de um século, entre as comunidades judaica e árabe no Brasil nos dá a força moral, ou “soft power”, para participarmos, nos foros internacionais, da construção de consensos dinâmicos na região.
Com um território equivalente a menos de um quarto do Espírito Santo e espremido entre Síria e Israel, o Líbano se valeu, desde os tempos em que os fenícios construíram Beirute, da janela do Mediterrâneo para fazer uma ponte comercial e financeira entre Ásia e Europa. Mas os últimos tempos têm sido duros.
A guerra na Síria e as políticas de Netaniahu e de Trump contribuíram para uma forte crise político-financeira, agravada pela inabilidade de Michel Aoun. Com a destruição do porto no dia 4 último e a revolta popular contra a inoperância do governo, a renúncia do presidente se tornou inevitável, e não deve ser a única.
Nessas horas, a diplomacia brasileira precisa assumir sua responsabilidade e batalhar, no âmbito nacional, no sistema das Nações Unidas e em contatos bilaterais com os países influentes no Oriente Médio, em prol de ações concretas para socorrer o povo libanês. Internamente, precisamos, por exemplo, convencer os exportadores do agronegócio de que doações emergenciais de alimentos redundarão, a médio prazo, em melhores ambientes de negócios internacionais.
Nas instâncias diplomáticas, precisamos adotar uma atitude proativa, participar de planos de ajuda, facilitar negociações. Assim estaremos honrando as melhores tradições de nossa diplomacia e recuperando algo do prestígio que a nossa política externa vem perdendo nos últimos tempos.
O autor é embaixador aposentado e secretário de Meio Ambiente de Vila Velha