
Antônio Carlos de Medeiros*
Outro dia, um grande amigo esteve aqui. Da estirpe dos capixabas que atravessaram a “fronteira” e fizeram sucesso, no Brasil e/ou lá fora. A lista é grande. E agora tem este jovem Felipe Rigoni, lapidado em Oxford, para mostrar que é possível os movimentos cívicos levarem oxigênio para os partidos políticos.
Nós, capixabas. Lá fora, costumamos nos sobressair. Somos reconhecidos como criativos, empreendedores, trabalhadores, competitivos. Lá, temos a essência da cultura do desenvolvimento: confiança nos outros cidadãos, cooperação, respeito às regras do jogo, produtividade. O ponto central é a confiança.
Mas, aqui, temos uma paixão inexplicável pela chamada Teoria do Caranguejo. Ninguém sai da panela. Todo mundo puxa para baixo. No fim, perdem todos. Conflitos, maledicências. Como se fôssemos a sociedade descrita por Thomas Hobbes em “Leviatã”: homem, lobo do homem. É impressionante a nossa incapacidade de cooperação e propensão à parceria. Às vezes, parece que torcemos contra o sucesso dos outros.
São incontáveis os exemplos. Quase perdemos a privatização do Aeroporto de Vitória. O leilão foi um sucesso, mas resistimos à companhia de Macaé. Em Vitória, brigamos desde 1989 por um Parque Tecnológico. Como na metáfora da panela de caranguejos. Florianópolis, que inspirou Vitória em 1989, está lá na frente em inovação.
O ES está um Estado arrumado. Só não vê quem não quer. Mas nós, capixabas, precisamos nos arrumar também. Não é possível desenvolvimento sustentável sem uma cultura de desenvolvimento. Há um nexo causal entre a cultura da confiança do cidadão no outro cidadão e o desenvolvimento. É a confiança que leva à cooperação e à associação, bases da produção de riqueza. O destino, ele outra vez, vai trazer para o ES muitos recursos da economia do petróleo nos próximos dez a 15 anos. Em perspectiva histórica, são apenas 15 milésimos de segundos. Passa rápido. Vamos fazer o quê? Continuar culpando o governo federal?
Desde muito jovem, ando pelo Brasil e pelo mundo. Morei lá, morei cá. Morei cá, morei lá. Teve um tempo que acreditei na existência da utopia do poema Pasárgada de Manuel Bandeira. Depois, vi que ela não existe mais. Brexit, Trump, Nova Zelândia, Estado Islâmico, Imigrações, Mudanças Climáticas. Tempos fraturados. É bom nos acostumar. Na sociedade em rede, as redes vieram para o bem ou para o mal. Facilitam a nossa vida. Mas também geram uma cultura do conflito e dos “donos da verdade”.
Continuo andando por aí. A quem me pergunta ainda de onde sou, digo: sou lá da Praia do Canto. Às vezes, acrescento, lembrando Eduardo Campos: não vamos desistir do Brasil. A prolongada recessão do Brasil vai passar uma hora dessas. Quando chegar a hora, temos que ter capacidade cultural para virar o jogo. Voltarei ao tema.
*O autor é pós-doutor em ciência política pela The London School of Economics and Political Science