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Artigo de Opinião

História

Ditaduras devem ser lembradas, não comemoradas

Ditaduras não são para se comemorar, são para serem lembradas com pesar da época em que perdemos direitos

Publicado em 29 de Março de 2019 às 19:37

Publicado em 

29 mar 2019 às 19:37
Cenas da Ditadura
Dalton Santos Morais*
O presidente da República orientou que as Forças Armadas comemorem o dia 31 de março de 1964 e, por isso, recebeu muitas críticas e várias ações judiciais contra tal ato. O motivo de tal repreensão geral é que nesta data se iniciou a Ditadura Militar, notabilizada por ser um regime de exceção democrática em que se aboliu direitos e garantias fundamentais e quando se prendeu e perseguiu com brutalidade e repressão pessoas com ideias políticas, sociais e jurídicas divergentes dos ocupantes do poder. Foi durante esse regime que se chegou, por exemplo, ao afastamento arbitrário de ministros do STF que julgavam contra os interesses do regime e ao assassinato de um jornalista em instalações da polícia política da época.
Não há dúvidas, portanto, de que o período iniciado nessa data foi um regime ditatorial, como, aliás, reconhecido pelo próprio Estado brasileiro após os trabalhos desenvolvidos pela chamada Comissão da Verdade, cujos resultados apontaram que o Estado brasileiro seria responsável pelos atos daquele regime que produziram 191 mortes, 210 desaparecidos e 6.591 pessoas perseguidas com sanções indevidas pelo regime, inclusive militares perseguidos.
Portanto, como se comemorar uma data dessas? Se é possível fazer uma limonada de um limão tão azedo como esse, como jurista e constitucionalista diria que com tal atitude governamental até se presta um favor ao povo brasileiro, pois assim se permite que não nos esqueçamos desse desvio tenebroso de nossa história democrática e que os horrores daquela época sejam relembrados para que não mais nos permitamos endeusar opressores de direitos fundamentais, como a liberdade de expressão, como “salvadores da pátria”.
Na verdade, se vivemos em um Estado democrático, a posição oficial correta deveria ser a formalização de uma data de lembrança do início daquele regime, pois, como se sabe, o povo que não se lembra de seu passado está condenado a repeti-lo. De fato, esta data precisa ser marcada: não para ser comemorada, mas para ser lembrada com pesar do desvio desumano e antidemocrático de nossa história recente, entre 1964 e 1985, tal como fazem, por exemplo, os alemães com o Holocausto, os sul-africanos com o Aparthaid, os portugueses com a Ditadura de Salazar e os espanhóis com a Ditadura de Franco.
Afinal, ditaduras não são para se comemorar, são para serem lembradas com pesar da época em que perdemos o direito de expressarmos ideias e valores divergentes dos outros e de ouvirmos ideias e valores diferentes dos nossos.
*O autor é advogado, mestre em Direito Processual Civil e procurador federal da Advocacia-Geral da União
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