São corriqueiras as prisões, apreensões de armas de fogo e drogas ilícitas divulgadas pelos veículos de comunicações. É inevitável a aparente sensação de que o problema "foi resolvido" através das cotidianas imagens.
Entretanto, é fundamental que recorramos à racionalidade. A massa geralmente é direcionada a pensamentos incompletos e mal orientada sobre o que de fato acontece nos bastidores desse complexo e mal debatido labirinto jurídico e social.
Em 1829, Robert Peel deflagra seus 9 princípios que revolucionaram a então precária polícia inglesa. No contexto desse raciocínio, seu 5° princípio acentua que "a confiança da população na polícia não está relacionada a agradar a opinião pública (...)”. É imperioso, portanto, contínuas estruturas sólidas legais e sociais. De modo geral, no Brasil, as regras são invertidas, as "opiniões públicas" pautam e recebem respostas policiais, ainda que essas instituições possuam seríssimas limitações nesse complexo e confuso teatro.
Imagens e mais imagens são apresentadas, armas de fogo, drogas e pessoas detidas: o cenário não há fundo. Não reflexões, as cortinas se fecham e a escuridão toma conta dos já limitados olhares da sociedade. Um velho jargão orbita em meio ao senso comum com uníssona sonoridade: "A polícia prende, mas a justiça solta". Ledo engano.
Crimes de tráfico ilícito de drogas e porte ilegal de armas de fogo deveriam ser hediondos e inafiançáveis, tanto na esfera da ação de polícia judiciária quanto nas audiências de custódia, lamentavelmente não são e o loop continua ininterruptamente.
Há um abismo legal permissivo que inverte o jogo da democracia: as vítimas não têm relevância e os criminosos têm um tratamento muito mais humano que os humanos vitimados.
Há quem questione: mas e a dízima da população prisional? Endurecendo as leis aumentaria essa escalada? A solução então seria desencarcerar, aplicar tornozeleiras eletrônicas, sanções totalmente ineficazes ou a virtualização de ferramentas muito distantes do mundo real? O cenário é claro: é jogo praticar crimes no Brasil. A certeza da impunidade é inquestionável.
Nas vielas policiais, o eterno lamento: "É um trabalho de carregar água em peneiras" ou de "enxugar gelo". E diuturnamente tentam não somatizar ao enxergarem os mesmos meliantes sendo presos pela enésima vez. Como bem dizia José Saramago: "O que é ter olhos num mundo de cegos?". Um colossal volume de inércia é empurrado para baixo do tapete da indiferença. Quem trabalha e reside nesses locais experimenta dor e desespero.
Porém, o tapete ficou curto e se perpetua a violência em meio a uma sociedade refém dos olhares lenientes e protetivos. A adoção de medidas para romper a atmosfera de defesa do caos está criminalizada e aqueles que teriam o papel de proteger estão algemados. Liberdade sem responsabilidades: esta é uma nova era que se desponta. Até o momento em que das cinzas nasça alguma consciência e o real motivo para a reconstrução da sociedade.