
Paulo Hartung*
A capacidade de produzir diálogos efetivos é premissa do exercício legítimo e democrático-republicano da política. Desde 2013, o Brasil experimenta longa crise de polarização. Nesse contexto de cordas esticadas para os extremos do espectro político, padece de paralisia justamente o que deveria estar no centro do exercício político-institucional: a execução da agenda de reformas estruturantes e a definição de políticas públicas promotoras de desenvolvimento social e econômico sustentável e inclusivo.
Desde de 2014, vivemos crise fiscal aguda. O desemprego atinge mais de 13 milhões e continua avançando. O sistema previdenciário engole com cada vez mais apetite a possibilidade de equilíbrio das contas públicas. Enfim, há uma pauta urgentíssima que demanda acuidade política e diálogo institucional para deslanchar de vez e tirar o país desse atoleiro em que estamos afundando há mais de meia década.
Com sua guerra discursivo-ideológica e comunicação enviesada, o novo governo adiciona ainda mais complexidade a uma situação que já é bastante difícil no tocante à fluidez dos processos políticos necessários não somente às reformas mas também à normalidade do funcionamento das máquinas governativas.
Ainda que marcadas por exageros de radicalidade político-ideológica, as últimas manifestações podem e devem ser vistas como movimentos a chamar as lideranças políticas à assertividade quanto à real e impositiva agenda do nosso país. Em que pese a inconsistência de serem contra as reformas, é ótima notícia que cidadãos tenham ido às ruas defender a educação.
Nas marchas governistas, houve uma legítima defesa da agenda de reformas, notadamente a da Previdência, e o reconhecimento de que a situação fiscal é crítica. Conforme divulgou o IBGE na última quinta-feira, o PIB recuou 0,2% no primeiro trimestre de 2019, comparativamente ao quarto trimestre de 2018, evidenciando a estagnação econômica sob o novo governo. Para agravar, esse resultado é o primeiro negativo após dois anos (oito trimestres) seguidos de recuperação, ainda que lenta.
Esse é mais um exemplo do beco sem saída a que nos levam os extremismos, cujos efeitos nefastos vêm lentamente sendo percebidos pela população, que dá sinais eloquentes do cansaço da paralisia e dos retrocessos que engessam o país. Que as vozes das ruas inspirem diálogos político-institucionais que sinalizem e viabilizem a retomada do crescimento com geração de renda e emprego, o que a passa tanto pelas reformas quanto pela educação de qualidade.
*O autor é economista e ex-governador do Estado do Espírito Santo (2003-2010/2015-2018)