
Wilson Coimbra Lemke*
A Catedral de Notre-Dame, uma das mais belas construções medievais, sobreviveu à Guerra dos Cem Anos, à Revolução Francesa, às duas Guerras Mundiais e à ocupação nazista, mas não resistiu ao laicismo indiferente dessa civilização.
Com uma narrativa quase profética, o romance de Victor Hugo, “Notre-Dame de Paris”, publicado em 1831, parece retratar com maestria esse trágico acontecimento: “Os olhares buscaram o topo da igreja. Era extraordinário o que viam. Do alto da galeria mais elevada, acima da rosácea central, uma grande chama subia entre os dois campanários, lançando turbilhões de faíscas. Era um fogaréu desordenado e furioso, do qual o vento às vezes carregava uma língua, que se perdia nos ares”.
De fato, a partir da Revolução Francesa, os ventos do indiferentismo liberal e do ateísmo socialista, que se difundiram nas sociedades modernas, foram todos condensados no princípio político do laicismo – doutrina que ignora a religião e os direitos da Igreja.
É bem verdade que o Estado tem uma finalidade louvável, que consiste em realizar o bem comum temporal. Mas, como nos lembra Santo Agostinho, a civitas terrena está sempre subordinada à civitas coelestis, isto é, à Igreja, que se revela indispensável para assegurar a salvação do gênero humano, e para a plena observância do Direito Natural – fundamento de toda legislação positivada.
Ocorre que, nos últimos séculos, a difusão do laicismo levou as nações à apostasia, e as chamas de Notre-Dame nos emitem um alerta dos perigos que os fortes ventos do secularismo francês têm causado nas sociedades contemporâneas.
A Revolução parece, agora, guilhotinar suas últimas e derradeiras vítimas: as tradições e os valores cristãos das nações ocidentais. E isto se deve, principalmente, ao fogo que se apagou do coração da França, desde o fim do século XVIII.
Com efeito, a chama que faltou aos franceses (e que falta, hoje, a muitos cristãos) consumiu Notre-Dame, verificando-se, mais uma vez, o preciso juízo de Richard Weaver: “A destruição do ser espiritual precede a destruição das muralhas do templo”.
Ao fim e ao cabo, isso nos mostra que as tragédias de nossa época nem sempre são frutos de acidentes, mas de decisões pouco sábias. Uma solução, talvez, seja possível: ela encontra-se no uso correto da razão humana, no respeito às exigências da ordem natural, na aceitação de que existem valores universais e no reconhecimento de que as ideias têm consequências.
*O autor é advogado, escritor e mestrando em Direitos e Garantias Fundamentais pela FDV