A inflação não muda apenas preços, mas muda comportamentos. Na prática,isso significa mudanças para quem ganha e quem perde dentro do jogo do consumo.
Dentro desse cenário, a adoção de produtos de Marca Própria no Brasil segue ganhando força: 58% dos consumidores nacionais pretendem aumentar a compra desse tipo de item ainda em 2026. Os dados são de uma pesquisa da Nielsen IQ apresentados no SIMP 2025, evento da Associação Brasileira de Marcas Próprias e Terceirização (Abmapro).
Isso corrobora o que tenho observado cada vez mais como um movimento silencioso, porém estrutural, no varejo: a ascensão das marcas próprias. Não como alternativa inferior, e sim como resposta direta a um consumidor pressionado, mais racional e menos disposto a pagar pelo “intangível” das grandes marcas.
Quando o orçamento aperta, a lógica muda. A fidelidade construída ao longo de anos de publicidade, muitas vezes embalada por jingles memoráveis, perde força diante de uma decisão mais pragmática. O consumidor deixa de comprar a marca e passa a comprar a função.
Essa transição não é trivial. Durante décadas, o valor de mercado das grandes indústrias foi sustentado justamente pela construção de marcas: campanhas, repetição, presença e memória.
Um movimento em expansão
De acordo com outro levantamento da Nielsen IQ de 2025, as vendas de produtos de Marca Própria no varejo já superam a marca de R$ 6,3 bilhões, representando um crescimento médio de 9,2% em comparação ao ano anterior. A pesquisa levou em consideração dados coletados até agosto do ano passado.
Conforme o estudo, o canal farma representou a terceira maior alta entre os produtos de marca própria (15,5%), atrás apenas do atacarejo (23,6%) e dos supermercados regionais (20,1%).
Esse avanço pode ser explicado pela pressão sobre itens essenciais como alimentos, energia e combustíveis, que faz com que o consumidor passa a reavaliar prioridades. Nesse contexto, ele entende cada vez mais que parte do preço pago está associada à marca, e não necessariamente à qualidade do produto.
Os dados e movimentos de mercado já indicam essa mudança há algum tempo. Em cenários inflacionários, cresce a participação das marcas próprias nas vendas, impulsionada pela busca por melhor custo-benefício. Mas o que antes era cíclico agora começa a ganhar contornos estruturais.
Na prática, estamos assistindo a uma inversão de lógica: o varejo deixa de ser vitrine e passa a ser protagonista. E isso tem implicações profundas, desde a cadeia de produção até as estratégias de branding das grandes empresas.
A era do jingle não acabou por falta de criatividade. Ela perdeu relevância porque o contexto econômico mudou. Hoje, quem dita o ritmo não é a música que gruda na cabeça, mas o preço que cabe no bolso. E, nessa nova lógica, vence quem entrega valor real, não apenas percepção