
Ruy Marcos Gonçalves*
A diversidade religiosa exige a promoção da cultura da paz, pois toda crença prega o respeito e o amor ao próximo.
Apesar disso, os dados de intolerância religiosa crescem no Brasil, e as religiões de matriz africana são o principal alvo. A intolerância religiosa resulta da ignorância plantada por quem não respeita a fé e a história alheias. A religião é uma dimensão importantíssima na vida de muita gente e todas têm seu espaço e merecem respeito.
Ser tolerante não é o mesmo que respeitar e reconhecer a legitimidade alheia tal qual a sua própria. Quem apenas tolera carrega ainda os vestígios de superioridade.
A intolerância religiosa se caracteriza assim como a expressão do racismo. Um crime sutilmente acomodado historicamente à sociedade brasileira, que inferiorizou e marginalizou as expressões de crença de africanos e seus descendentes.
A violência, a intolerância religiosa e a falta de políticas sociais que atendam às necessidades dos cidadãos negros brasileiros trazem à lembrança a história de um povo sofrido que tem em suas raízes as marcas da escravidão.
Portanto, quando estamos falando de intolerância religiosa no Brasil, estamos falando de uma manifestação do racismo.
Citando Guimarães Rosa, o Povo de Axé sempre soube que “o que a vida quer da gente é coragem” para buscar formas de unidade na luta por direitos e ampliar a construção de uma cultura política que combata todas as formas de racismo e se coloque permanentemente em defesa da paz.
A construção de uma cultura de paz nas comunidades passa necessariamente por um esforço coletivo em se tratar a questão do racismo de forma mais franca, direta e aberta. Que o carnaval do Brasil, que sempre começa aqui em terras capixabas, seja a fonte para disseminar nosso compromisso na luta contra a intolerância religiosa, contra o racismo e em defesa absoluta da paz.
Axé!
*O autor é diretor da Liga Independente das Escolas de Samba do Grupo Especial (LIESGE) e militante do Movimento Negro
**Esse texto foi lido na abertura do Desfile das Escolas de Samba em Vitória, no carnaval deste ano