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Petrônio Souza

Artigo de Opinião

É jornalista e escritor
Petrônio Souza

Jogos Olímpicos no Japão sairão menores desta edição fora de hora

Esporte é conjunto, não distanciamento. Nesta Olimpíada não haverá a tão desejada confraternização entre os povos, apenas o confronto solitário entre adversários, a protocolar premiação
Petrônio Souza
É jornalista e escritor

Publicado em 23 de Julho de 2021 às 10:00

Publicado em 

23 jul 2021 às 10:00
Anéis olímpicos na Baía de Tóquio, no Japão
Anéis olímpicos na Baía de Tóquio, no Japão Crédito: Tóquio 2020
Esporte é saúde. A realização das Olimpíadas em Tóquio neste momento, é um equívoco. Esporte é conjunto, duelo, parceria, não distanciamento. Não haverá a tão sonhada e desejada confraternização entre os povos, apenas o confronto solitário entre adversários, a protocolar premiação. Um palco de dimensões mundiais, reduzido à disputa pontual. Um despropósito. É o peso da grana e dos contratos destruindo as coisas belas, sem as cores, abraços, gritos, gestos, festejos e afagos de outras primaveras. Uma pena!
Secular em sua fase moderna, as Olimpíadas foram criadas na Grécia Antiga, com a proposta de celebrar e exaltar os deuses, tendo como ponto final as limitações do homem. A constatação de como são pequenos os mortais, diante dos feitos e possibilidades divinos. Era uma forma muito sofisticada e sutil de o Estado dizer que era bem maior que o cidadão. Nessa época, esportistas eram vistos como heróis e imortalizados em fábulas e poemas.
Se no início as Olimpíadas evidenciavam a limitação física do homem, agora elas revelam a ilimitada ganância e obsessão humanas. E essas não têm fim, nacionalidade ou consideração ao próximo. Vale lembrar que o povo japonês se manifestou contrário à realização do evento em seu país durante a pandemia mundial do novo coronavírus, com 70% da população se declarando contra.
O que ocorre no Japão hoje não é uma recepção, uma confraternização planetária, mas sim uma grande invasão, com reflexos e estranhamentos nas ruas, desvirtuando o sentimento e o sentido original das Olimpíadas. Para agravar ainda mais o desrespeito ao povo japonês, o Comitê Olímpico Internacional (COI), realizador do evento, diante dos protestos, justificou a realização das Olimpíadas declarando que “não estamos indo para Tóquio, mas para as Olimpíadas”. Diante dessas arbitrariedades, indago: Qual será o legado dessa edição dos jogos olímpicos para a história das Olímpiadas? Esporte é vida, não morte. Esporte é superação, não afronta.
Me parece claro que os Jogos Olímpicos no Japão sairão menores desta edição fora de hora. Prova disso são os protestos realizados em Tóquio, onde se vê a bandeira olímpica, símbolo maior dos jogos, sendo estigmatizada. Nos protestos, os cinco anéis entrelaçados harmoniosamente na bandeira oficial, cada um com uma cor, simbolizando os continentes do planeta, foram pintados com a imagem do coronavírus, jogando no lixo uma marca criada e consolida mundialmente ao longo das décadas.
Enquanto isso, sem falar um idioma sequer, sem levantar peso, correr a passos largos ou nadar, um vírus invisível e acéfalo evolui solitário, vencendo calado o maior e o mais forte dos mortais. E ele não subirá ao pódio e nem será homenageado, apenas descerá calado ao fundo escuro da ‘frialdade inorgânica da terra’.
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