Certamente, o Natal é data central no calendário ocidental. A cena mais emblemática da agenda cristã é testemunhada, com perspectivas diferentes e riqueza de detalhes, em Mateus, Marcos e Lucas. Contudo, não podemos ler tais narrativas qual fazemos com biografias modernas.
Mais do que descreverem o passado, os evangelistas desejam ensinar, dar significado e anunciar as preferencias do projeto iniciado na Palestina do primeiro século. As coloridas histórias que dão vida às atuais comemorações natalinas são proclamatórias, testamentos teológicos.
Entre os escritores preocupados com a origem do menino messias, Lucas é o único a preservar as lembranças da experiência dos pastores (Lc 2.8-20). No texto, o Anjo, ladeado pelo coral celeste, além de presenteá-los com lindíssimo cântico, entrega-lhes a impactante revelação da chegada do salvador. Como grafa o segundo evangelista, extasiados – quem não ficaria? –, os pobres trabalhadores do campo são os primeiros a testemunharem sobre o filho de Maria e José. A cena fica ainda mais interessante quando conhecemos as profissões tratadas como desprezíveis na tradição rabínica.
O erudito J. Jeremias (1900-1979) explica que os pastores estavam em pelos menos duas dessas cinco listas vexatórias. Por isso, na época, o testemunho dos criadores de ovelhas não tinha validade para efeitos legais. Se considerarmos esse contexto, a vocação dos pastores já aponta na direção do tipo de missão e as pessoas preferidas, trinta anos depois, pelo bebê da manjedoura.
A natividade lucana anuncia ao mundo as inversões propostas na fé cristã. Assim, celebrar o nascimento de Jesus é, antes de qualquer coisa, lembrar-se da sempre possível transformação das realidades desumanizadoras, e do empoderamento dos esquecidos. No nascimento de Jesus, os silenciados ganham voz e lugar especial. Como canta o Magnificat: “tirou poderosos de seus tronos e a humildes exaltou” (Lc 1.52).
Natal é revolução!
O autor é cientista da Religião, professor, pastor e escritor