Thomas Traumann*
No século XIX, era comum se levar canários para acompanhar os trabalhadores das minas de carvão. Presos em gaiolas, os passarinhos eram os primeiros a sentir os efeitos dos gases tóxicos. A morte do canário era o sinal para fuga imediata dos mineiros. A prática gerou uma expressão inglesa “canary in the coal mine”. O Congresso brasileiro é o principal canário da mina de carvão para mensurar o poder do Palácio do Planalto.
O Congresso é conhecido por dar crédito aos novos presidentes. Deputados e senadores aprovaram o sequestro das contas-correntes e cadernetas de poupança do Plano Collor. FHC teve apoio para quebrar o monopólio da Petrobras. Lula fez aprovar uma reforma da previdência para os servidores públicos que rachou o PT.
Também foram das votações do Congresso as primeiras impressões de fadiga dos presidentes. Collor foi derrotado nas medidas de ajuste fiscal. FHC perdeu a reforma da Previdência, e Lula ficou sem R$ 40 bilhões para a saúde com o fim da CPMF. É no Congresso que os presidentes descobrem que podem muito, mas não podem tudo.
Nada é mais parecido com o alarme de um canário morto, no entanto, do que errar na eleição interna do Legislativo. FHC perdeu o controle da sua coalizão quando o então deputado do PSDB Aécio Neves rompeu e derrotou o PFL. Lula correu risco real de impeachment quando o deputado Severino Cavalcanti, do PP, se elegeu presidente da Câmara. O prólogo do impeachment de Dilma Rousseff se deu com a eleição de Eduardo Cunha.
Todos os presidentes estão sujeitos aos humores de deputados e senadores, mas Bolsonaro estreou um novo formato de relação com o Congresso, recusando indicações partidárias e dando poder às bancadas temáticas. Por ser inédita, a tática é arriscada. Pode significar uma redução no toma lá dá cá. Pode ser um fiasco.
Quase todas as mudanças prometidas na campanha dependem do voto dos parlamentares, inclusive parte preponderante da agenda do ministro Paulo Guedes.
Por isso a eleição de hoje para as presidências da Câmara e do Senado são o marco zero do governo. O Planalto não pode ser percebido como o lado derrotado. A história recente mostra que os parlamentares avançam sobre presidentes que julgam fracos.
JB perdeu parte do seu capital eleitoral com as suspeitas sobre o filho Flávio, mas a votação consagradora de outubro lhe assegura o controle da agenda pública. É dele e não do Congresso a expectativa dos eleitores. Se sair derrotado na eleição para os presidentes da Câmara e do Senado, porém, JB terá que dividir o protagonismo com o Legislativo. O risco de não aprovação da agenda econômica triplica. O canário da mina de carvão estará morto.
*O autor é jornalista, autor do livro “O Pior Emprego do Mundo”, consultor político-econômico independente e ex-ministro de Comunicação Social (2014-2015)