Não tem como negar, o carnaval tem uma força mística, uma felicidade programada e uma energia vital que movimenta uma nação, pulsa a nossa cultura e nos identifica enquanto coletividade. Não surgiu no Brasil, mas foi o brasileiro que deu significado, trouxe vida e, com ela, resistência.
No cerne da nossa cultura popular, o carnaval é compreendido como formador de uma identidade cultural, construída de maneira democrática. Se formos descrever de forma simplista caímos na ideia de que essa construção identitária se dá apenas por ser caracterizado como aquilo que o povo consome, mas não, o que faz o carnaval ser uma potência para compreender uma sociedade é porque ele é aquilo que o povo cria. É o povo quem produz o show e assina a direção. E tudo que é produzido pelas multidões está dentro de um campo de força das relações de poder.
Na literatura, na mídia, na música e em outros registros, o carnaval sempre foi o momento para disfarçar o eu, para fazer com que o indivíduo desaparecesse na coletividade, e nessa coletividade se encontra voz para gritar aquilo que os oprime.
Quem dita o que é interessante? Quem determina os valores que devem ser venerados? Quais vozes são escutadas? Quais são silenciadas? Aquilo que um dia foi proibido e hoje é aceito também se fez por meio da resistência e pressão popular: o carnaval, o samba, o rap, o blues, “tudo que era preto era do demônio e depois virou branco e foi aceito”, como já disse Baco Exu do Blues.
É nesse campo de forças que o carnaval sai nas ruas. Na ocupação do espaço público que por si só já está em constante disputa na dualidade entre público e privado, fabricando o que a urbanista Raquel Rolnik chama de segregação espacial: a diferença de tratamento e atenção em diferentes pontos de uma mesma cidade. Assim, o território que pulsa a manifestação da vida social vira palco de fervo e luta.
Neste cenário o carnaval se torna brasileiro e o brasileiro se torna carnaval, emergindo das frestas de uma sociedade problemática, colocando o bloco da resistência na rua.