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Marcos Alencar

Artigo de Opinião

É cronista e economista
Marcos Alencar

O inigualável Cariê

Um grande homem que sabia como poucos respeitar as pessoas e também como pouquíssimos ser o amigo que todos sonham ter. É raro o dia em que não me lembro do velho/jovem amigo
Marcos Alencar
É cronista e economista

Publicado em 06 de Abril de 2022 às 02:00

Publicado em 

06 abr 2022 às 02:00
Cariê, Carlos Lindenberg Filho, presidente do conselho administrativo da Rede Gazeta
Cariê foi presidente do conselho administrativo da Rede Gazeta Crédito: Edson Chagas | Arquivo 
Um dia, numa crônica, ironizei a figura de um então deputado federal capixaba, muito popular por estas bandas e que depois de eleito nunca mais deu as caras por aqui. Usei de cores muito fortes para clarear seus novos passos atuando mais no circuito político da vaidade do que na luta pelos verdadeiros anseios dos capixabas. Beirei a crueldade, confesso.
Meses depois, ao chegar para mais um dia de trabalho na TV Gazeta, encontrei-me com Cariê debruçado no corrimão, no topo da escada que leva ao primeiro andar do prédio. Nos cumprimentamos de passagem, e quando eu já ia mais adiante ele me chamou. Como era de seu feitio, antes de me convidar a ir a sua sala, perguntou-me: "Você está muito ocupado agora?" Disse-lhe que não. E só então ele falou que queria me mostrar algo.
Entramos e ele foi tirando da gaveta um envelope e pediu-me que eu o abrisse logo. Era uma carta, assinada pelo tal deputado, onde ele se dizia muito ofendido com o que eu escrevera e pedia, com toda ênfase, que Cariê me demitisse. Fiquei meio que paralisado. Antes que eu me recobrasse da surpresa, ele entregou-me mais duas cartas, assinadas por prefeitos correligionários do deputado, com igual teor. Vejam bem, isso dois ou três meses após as datas das cartas covardes.
“Sim....”, disse com aquela entonação de quem espera por um castigo. Mas ele abriu aquele seu sorriso inconfundível e arrematou nosso encontro: “Leve para seus arquivos”. Ponto final. E fui para minha sala trabalhar para esse grande homem que sabia como poucos respeitar as pessoas e também como pouquíssimos ser o amigo que todos sonham ter.
Nos últimos anos de sua vida, aos sábados, eu voltava da feira e trazia umas espigas de milho cozido para comermos juntos, comentar os assuntos da semana e rir, rir muito dos tropeços dos atores da viva comédia nacional.
É raro o dia em que não me lembro do velho/jovem amigo. E me emociono sempre que ouço “Devaneio”, sua belíssima composição musical que durante anos foi tema de abertura da nossa TV Gazeta.
* O empresário Cariê Lindenberg faleceu há um ano
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