O recente caso da prisão, tortura, morte e ocultação do corpo de Marcos Vinicius Lopes Rodrigues desvela o drama vivido pelas pessoas em situação de rua no Espírito Santo e evidencia ações de grupos de extermínio em nosso Estado, embora muitos insistam em afirmar que tais práticas já não existam entre nós.
As imagens são nítidas. Não foi uma ação improvisada, mas uma operação com profissionais armados e planejamento.
Esse não é um caso isolado. Trata-se de um ambiente de violência alimentado por discursos e ações de políticos e agentes públicos que, diuturnamente, naturalizam e estimulam simbolicamente a violência contra pessoas em situação de rua.
Ao longo dos últimos anos, a Pastoral do Povo de Rua realizou inúmeras denúncias de ações higienistas promovidas por prefeituras da Grande Vitória, como a apreensão forçada e a retirada de pertences de pessoas em situação de rua, frequentemente tratadas como lixo a ser recolhido nas madrugadas frias, em práticas marcadas pela crueldade e pela degradação da dignidade humana.
As redes sociais estão repletas de vídeos de candidatos que utilizam discursos violentos contra essa população como plataforma política, sem que providências efetivas sejam tomadas pelos órgãos públicos responsáveis pela fiscalização e garantia dos direitos fundamentais.
Nos últimos anos, foram realizadas inúmeras reuniões com associações de moradores e audiências públicas, amplamente divulgadas e organizadas por vereadores da Grande Vitória, com a participação de agentes das forças de segurança estaduais e municipais, em iniciativas com o objetivo de criminalizar e “retirar” essas pessoas da rua.
Não era só retórica, como demonstra o caso de Marcos Vinicius! Muitas pessoas que viviam nas ruas da Grande Vitória já não são mais encontradas nos locais onde costumavam estar. Na maioria dos casos, não há informações sobre acolhimento institucional, acesso a políticas públicas ou reinserção social.
A extrema vulnerabilidade, a ausência de vínculos familiares, a falta de documentação e a precariedade das políticas de acompanhamento e o descaso institucional tornam essas pessoas invisíveis e dificultam qualquer rastreamento ou busca efetiva quando desaparecem.
Mas quem se importa? No caso de Vinicius, sua mãe se importava. Foi por causa de sua insistência e busca incansável que o caso veio à tona; do contrário, talvez fosse apenas mais um entre tantos desaparecimentos que sequer sensibilizam a sociedade. De acordo com Observatório da Segurança Pública - Pessoas Desaparecidas – SESP/ES, em 2025 foram registrados 2556 casos de desaparecimento no Estado. Desses, 32 pessoas foram encontradas sem vida.
Nem todos têm uma mãe zelosa como a de Marcos Vinicius ou uma família estruturada que denuncie o desaparecimento e procure por seu ente querido. Essa é a realidade de muitos jovens das periferias, especialmente daqueles envolvidos com o tráfico ou com outras práticas criminosas, sobretudo quando são oriundos de outros estados.
Muitos nem sequer possuem documentação. São pessoas invisibilizadas muito antes do desaparecimento, marcadas pela ausência de vínculos, proteção social e reconhecimento público de sua própria existência.
Por isso, quando falamos da redução dos índices de homicídio no Estado, de quais mortes estamos falando? Daquelas que chegam às estatísticas porque os corpos são encontrados e os crimes registrados? E quantos desaparecimentos seguem sem respostas, especialmente entre pessoas socialmente invisibilizadas? Quantos corpos jamais são identificados? Quantas famílias nem sequer conseguem registrar a ausência de seus filhos, irmãos ou pais? Quantos foram colocados em “sacos pretos” e desovados em lugares ermos ou enterrados em cova rasa? Quantos outros foram vítimas fatais do “besouro sem asa” que, dia e noite, atormenta as periferias da Grande Vitória?
O caso de Vinicius nos obriga a refletir sobre os limites das estatísticas oficiais diante da realidade brutal vivida nas periferias e nas ruas da Grande Vitória, marcadas pelo medo, pela violência e pelo abandono cotidiano.
Não se trata apenas de retórica ou de uma frase de efeito. Em muitos contextos do Espírito Santo, determinados discursos e práticas revelam uma preocupante naturalização da violência contra os mais vulneráveis. Paz social é algo profundamente diferente de políticas marcadas pela violência institucional, pelo controle autoritário da pobreza e pela negação da dignidade humana.
Paz social não se confunde com terrorismo de estado e nós, que cremos, sabemos que um dia teremos de responder à pergunta: “Onde está o teu irmão? Ouço o sangue do teu irmão clamar por mim” (Gn 4, 9). Qual será a nossa resposta?