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Cíntia Lima

Artigo de Opinião

É diretora de Comunicação e Marketing
Cíntia Lima

O rei do pop que o mundo não merecia

Michael Jackson foi e sempre será o Rei do Pop. Não por decreto, não por números, mas por algo mais difícil de explicar. A capacidade de fazer o mundo parar, olhar e sentir
Cíntia Lima
É diretora de Comunicação e Marketing

Publicado em 22 de Abril de 2026 às 15:34

Publicado em 

22 abr 2026 às 15:34

Há momentos em que a arte nos devolve algo que perdemos. Entrei na sala de cinema sem grandes expectativas. As críticas foram duras, os comentários divididos, e o nome de Michael Jackson nunca deixou de ser, para uma parcela do mundo, sinônimo de controvérsia. 


Mas quando as luzes apagaram e a primeira nota daquele catálogo inigualável tomou conta do ar, algo dentro de mim reconheceu o que estava prestes a acontecer. Uma homenagem. Um reencontro. Uma injustiça sendo, mesmo que parcialmente, reparada.


O filme "Michael", dirigido por Antoine Fuqua e protagonizado por Jaafar Jackson, percorre a trajetória do Rei do Pop desde os anos do Jackson 5 até o auge da sua carreira solo. Não é um filme perfeito. A crítica especializada apontou fórmulas, clichês de cinebiografia, ausências narrativas. Tudo bem. Críticos têm o direito de avaliar a gramática cinematográfica. Mas há coisas que a gramática não captura. E foi justamente isso que o filme entregou com generosidade. A alma de um artista que não pertencia ao seu tempo.

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Michael Jackson não era apenas um cantor. Era uma singularidade da história. Um menino que cresceu nos holofotes antes de entender o que era privacidade, que dançou antes de aprender a descansar, que criou obras-primas enquanto carregava o peso de uma infância que lhe foi roubada pelo próprio pai. O filme não poupa esse retrato. 


Colman Domingo, como Joseph Jackson, é perturbador na medida certa. O vilão não é suavizado. É real. E isso dói. Há também um ponto delicado na forma como a família é retratada. A figura materna aparece de maneira mais suavizada, ainda que sua postura possa ser lida, em certos momentos, como omissa. 


Ao mesmo tempo, o filme sugere o contexto de um relacionamento marcado por abuso, no qual Joseph Jackson se impunha como uma presença controladora e violenta. Há ali uma tensão difícil de equilibrar. Reconhecer essas camadas não diminui a responsabilidade, mas ajuda a compreender o ambiente em que tudo se formou. Foi uma escolha consciente da narrativa. 


Mas o que mais me tocou foi ver a bondade de Michael sendo retratada com delicadeza. Porque aquilo que muita gente esqueceu ou preferiu ignorar é que por trás do artista havia um ser humano que amava as pessoas de forma genuína. Que criou o Neverland não como símbolo de excesso, mas como tentativa de devolver a outras crianças aquilo que jamais teve. Que doou fortunas para causas humanitárias. Que escrevia músicas sobre cura, sobre paz, sobre responsabilidade coletiva. Há artistas que mudam a música. Há artistas que mudam a cultura. Michael Jackson foi um dos poucos que mudaram o que acreditávamos ser possível. 


Existe uma ironia perfeita no destino desse filme. A crítica especializada o recebeu com frieza, com avaliações que frequentemente puniam a produção não apenas pela qualidade técnica, mas também pelo que ela escolheu não mostrar. Enquanto isso, o trailer foi assistido milhões de vezes nas primeiras 24 horas. O maior número da história para uma cinebiografia musical. O público não esqueceu. O público nunca esqueceu.


E isso diz muito. Diz que existe uma diferença enorme entre os que julgam e os que sentem. Os que definem o valor de uma obra pelos critérios de uma narrativa prefixada, e os que se permitem ser tomados pela experiência. 


A crítica tem seu papel. Mas quando o público responde com o coração e os pés e indo ao cinema em massa, cantando junto, aplaudindo, chorando sem vergonha, a crítica precisa ter a humildade de reconhecer que há algo que a avaliação técnica não alcança. 

O ator Jaafar Jackson em 'Michael'
O ator Jaafar Jackson em 'Michael', cinebiografia de Michael Jackson Lionsgate/Divulgação

Michael Jackson foi diferente demais para o mundo em que viveu. Diferente na arte, ao criar um idioma novo de movimento, som e imagem que influenciou gerações. Diferente na aparência, algo que o filme trata com sensibilidade, contextualizando pressões e traumas. Diferente na forma de amar, sem filtro, sem cálculo, de um jeito que o mundo muitas vezes não soube interpretar.


O mundo foi cruel com ele. Não há outra forma de dizer. As acusações que o perseguiram, os anos de julgamento público, o circo midiático que se alimentou da sua dor com um apetite que não conhecia vergonha, tudo isso destruiu uma pessoa por dentro muito antes do dia em que o seu coração parou. 


E aqui está o nó que o filme toca, mesmo que de forma indireta: é muito mais fácil acusar quem é diferente. É muito mais fácil destruir quem não cabe nas caixinhas que inventamos para entender o mundo. Ser bondoso num mundo cínico é um ato de coragem. Michael Jackson foi corajoso a vida inteira e pagou o preço por isso.


Preciso falar de Jaafar Jackson, porque seria injusto não fazê-lo. Ele estreia no cinema com o peso do nome mais famoso do pop e sai com dignidade absoluta. Não é imitação, é incorporação. Há momentos em que a câmera captura algo nos seus olhos, na maneira como o corpo responde à música. Não porque Jaafar é Michael. Mas porque Jaafar claramente o amava e esse amor atravessa a tela. Assistir a um sobrinho honrar o tio assim é um dos gestos mais tocantes que o cinema me deu nos últimos anos. E isso, por si só, já valeria o ingresso.


Não vou mentir: Michael é uma cinebiografia com limitações. Segue uma estrutura cronológica previsível, romantiza o seu sujeito, deixa sombras propositalmente na penumbra. Mas também faz algo que muitos filmes sobre artistas falham, em nos fazer sentir a música. Nos faz lembrar por que aquelas canções existem. Nos faz entender, no corpo e na alma, não só na cabeça, porque um ser humano chamado Michael Joseph Jackson se tornou o fenômeno mais global que a música pop já produziu. 

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Quando começou a tocar "Human Nature", essa canção sempre me atravessou de um jeito difícil de explicar. Há algo nela que soa como solidão, como uma luta silenciosa que se trava por dentro. Naquela cena, não era apenas trilha sonora. Era quase uma confissão. E talvez por isso tenha doído tanto. 


Saí do cinema com "Billie Jean" na cabeça, com os olhos marejados e com uma certeza que não precisa de validação externa. Michael Jackson foi e sempre será o Rei do Pop. Não por decreto, não por números, mas por algo mais difícil de explicar. A capacidade de fazer o mundo parar, olhar e sentir. 


O mundo pode ter sido muito injusto com ele. Mas quem ele era, o menino prodígio de Gary, Indiana, o artista que expandiu os limites do possível. O ser humano complexo, sensível, maior do que muitas das narrativas que tentaram reduzi-lo.


Esse filme não é perfeito. Mas talvez não precise ser. Porque o que ele resgata não é a perfeição. É a memória. E algumas memórias, quando são verdadeiras, não podem ser apagadas.

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