Henrique Geaquinto Herkenhoff*
Durante anos, nossa investigação policial se resumiu ao “pau-de-arara”. Depois, passamos ao ciclo da interceptação telefônica. A bola da vez são as câmeras de segurança, cada vez mais onipresentes e, claro, a delação premiada.
Com exceção da tortura, todos esses meios são úteis, mas têm limitações que nunca deveriam permitir uma acomodação dos investigadores. Na verdade, uma boa investigação reside na combinação criativa, adaptada a cada caso concreto, desses múltiplos meios de não apenas identificar o culpado, mas também de prová-lo. É impressionante o quão pouco são utilizadas certas técnicas, algumas tão antigas quanto as impressões digitais, que hoje levam à identificação do criminoso em poucos segundos. Veja-se: nada dá maior chance de apuração e maior segurança jurídica a uma condenação que um conjunto coerente de provas das mais diversas naturezas, que formam um todo irretorquível. E apesar de aparecer em todos os antigos e modernos romances policiais, o uso das provas científicas é raro.
O leitor sabia que um modesto perito da nossa Polícia Civil desenvolveu um método para, em caso de estupro seguido de morte, recuperar o DNA do criminoso nas larvas que se instalaram no cadáver? Sabia que tese de doutorado em Física de um papiloscopista capixaba da PF mostra como extrair digitais de cartuchos? Sabia que os laboratórios forenses capixabas são os mais modernos da América Latina e têm em seus quadros mais mestres e doutores que a maioria dos cursos superiores, produzindo pesquisas de repercussão mundial? No entanto, até hoje não temos notícia da instalação dos os avançadíssimos equipamentos adquiridos em 2013 para o laboratório de histopatologia, que permitiriam não apenas desvendar inúmeros homicídios, mas também prevenir epidemias e outros usos: enquanto isso, continuamos usando de favor o obsoleto e sucateado laboratório da Secretaria de Saúde, em vez de lhes emprestar o nosso.
É histórico o descaso com a nossa Polícia Técnica, que vive entre descobertas científicas que parecem ficção e um desestimulante cotidiano de falta de novos investimentos e de atenção, não apenas de nossas autoridades, mas de toda a população e dos formadores de opinião, que desconhecem o verdadeiro tesouro que já temos em mãos, que dirá o potencial desses profissionais altamente qualificados e abnegados. Bem, soube que em 2019 haverá um concurso e uma nova sede: alvíssaras!
*O autor é professor do mestrado em Segurança Pública da UVV