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Artigo de Opinião

Legislação

Política, eleições e o abuso do poder religioso no Brasil

As igrejas têm presença pública e política indispensável. Contudo, seguindo sua tradição, tal influência não deveria ser estabelecida através de política partidária ou com projetos de poder
Kenner Terra

Publicado em 19 de Agosto de 2020 às 14:00

Publicado em 

19 ago 2020 às 14:00
Cruz, religião
É preciso avaliar como as igrejas usam e são usadas nas eleições Crédito: Shutterstock
Não é de hoje que o tema “evangélicos e política” está em pauta. Inclusive, podemos mapear as raízes dessa querela desde o advento dos movimentos protestantes no século XVI e o surgimento da Modernidade, tempo em que se desenvolveu a tensa discussão a respeito da relação entre Igreja e Estado.
Para entendermos melhor como as coisas mudam, contra os absolutismos e imposição da religião hegemônica, cuja estratégia era exatamente cooptar o poder político para si, os protestantes, pais históricos dos “evangélicos”, militaram em várias frentes pela liberdade de consciência e separação dos poderes. Entre os importantes nomes dessa história está o protestante John Locke (1632-1704), o qual, sob a influência dos batistas John Smyth e Thomas Helwys, defendeu a necessária separação entre interesses religiosos e políticos.
É nesse contexto que precisamos avaliar a proposta do ministro Edson Fachin de punição ao abuso de poder religioso, mesmo que os protestantes de hoje não tenham gostado muito da ideia. A questão não gira em torno das liberdades de crença e/ou de expressão, porque são garantidas nos documentos internacionais e Constituição, mas os abusos e ações antiéticas de líderes que usam os espaços religiosos a fim de garantirem benefícios pouco democráticos.
Precisamos entender que a República pressupõe o poder que emane do povo e os sujeitos alçados aos cargos devem alcançar esse lugar de representatividade dentro de normalizados processos eleitorais. Por essa razão, o Estado precisa, da melhor maneira possível, limitar as condições e acessos dos candidatos, o que garante uma corrida legítima e igualitária pelos cargos eletivos. Ou seja, na democracia é essencial a justa disputa eleitoral, exigindo o combate legal contra o abuso do poder econômico, por exemplo.
À vista disso, torna-se inevitável avaliar-se como as igrejas, enquanto instituições sociais da esfera pública, usam e são usadas nas eleições. Não é sem motivos candidatos correrem em busca do apoio de pastores e padres, porque sabem do peso simbólico da liderança religiosa sobre os fiéis. Isso não quer dizes que os membros das igrejas não tenham consciência política ou sejam facilmente manipulados, mas representa disparidade na disputa, porque desigualmente acessam, mediados pela força do discurso da fé, possíveis votos. Além disso, mesmo que não seja a maioria, há muitos líderes que usam esse “poder simbólico” para ganhar favores e impor agendas particulares. O que, realmente, pode se configurar como abuso de poder.
Por outro lado, igrejas e lideranças preocupadas com a preservação do Estado Democrático de Direito, cujas ações estão nos limites da lei, as quais não buscam benefícios político-partidários ou não usam a fé dos seus membros, não se sentirão prejudicadas em absolutamente nada, porque seguirão atuando com a lisura que lhes é peculiar. Nesse sentido, ladear legalmente o abuso religioso aos usos indevidos dos poderes políticos e econômicos significa proteger a democracia e separar de maneira clara o “joio do trigo”.
Indiscutivelmente, as igrejas têm presença pública e política indispensável e inevitável. Contudo, seguindo sua tradição, tal influência não deveria ser estabelecida através de política partidária ou com projetos de poder, mas na defesa da justiça e colocando-se ao lado do combate aos abusos antidemocráticos.
O autor é pastor, doutor em Ciências da Religião e professor
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