“Evangélicos votam em bloco e são massa de manobra”. Analistas de pesquisa e cientistas políticos repetem, em coro, em toda campanha eleitoral, esse mantra. Estudos sociológicos e antropológicos desmentem essa afirmação, tida até então como verdade absoluta no meio. É o que consta no livro ‘Povo de Deus’, de Juliano Spyer.
Publicada em 2020, a obra discorre, sobretudo, acerca da eleição de Bolsonaro em 2018. Todavia o estudo é mais profundo: o autor, em seus levantamentos in loco, no Nordeste, em 2013, não queria entender a eleição de Bolsonaro, que nem sequer povoava o imaginário da política – talvez apenas os sonhos do hoje presidente.
Spyer analisa o comportamento evangélico. Para ele, a escolha dos evangélicos passa longe de um movimento de massa feito do púlpito por seus líderes. “As causas materiais que transformam a vida dos fiéis são simples. Incluem, entre outras coisas, o fim do alcoolismo e consequentemente da violência doméstica; o fortalecimento da autoestima; a disciplina para o trabalho; o aumento do investimento familiar em educação e nos cuidados com a saúde.”
Esse conjunto de mudanças, segundo o estudo do autor, geralmente conduz à ascensão socioeconômica. E o que tudo isso tem a ver com Bolsonaro, que não projetou todos esses avanços? De forma estratégica, o então candidato defendeu a pauta moral (contra aborto, união homoafetiva, a temática de gênero nas escolas), endossada pelos evangélicos.
Na campanha presidencial de 2018, enquanto o petista Fernando Haddad, adversário de Bolsonaro no segundo turno, chamava o bispo Edir Macedo, da Igreja Universal, de “charlatão”, o hoje presidente da República se apresentou como representante dos valores familiares cristãos. Foi a senha para que dois terços dos evangélicos escolhessem o militar. Mas um terço deles não arredou o pé do apoio ao petista, o que corrobora com a tese de pensamento individual defendida por Spyer.
Dentro do conjunto de valores defendidos por esses religiosos também está a crença de que as oportunidades precisam ser iguais, mas cada um deve aproveitá-las a seu modo. O evangélico quer viver seu próprio desenvolvimento econômico e social sem a ajuda direta do Estado. Esse ingrediente aciona o alerta contra os programas sociais e a distribuição de bolsas, bandeiras claramente constantes do programa de governo da esquerda.
Juliano Spyer não minimiza o poder de comunicação dos líderes religiosos, munidos de canais de TV, rádios e jornais, nem os casos de desvio de dízimos que cercam essas figuras. Mas salienta que essa é apenas a ponta do iceberg. A base dele – não enxergada por muitos políticos ao posicionar suas campanhas – é formada por cristãos com aspirações de vida bem peculiares, que transcendem pessoas e partidos. Talvez por isso, em pesquisa Datafolha de maio do ano passado, Lula e Bolsonaro apareçam empatados no voto evangélico em um eventual segundo turno: cada um com 45% das intenções.