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Welington Serra Lazarini

Artigo de Opinião

Saúde pública

Profissionais da saúde merecem homenagens, mas não são heróis

A crise é um convite para irmos além das palmas e olharmos para médicos e enfermeiros e suas condições de trabalho, com rotinas exaustivas, salários defasados e exposição a ambientes de trabalho insalubres
Welington Serra Lazarini

Publicado em 31 de Março de 2020 às 15:03

Publicado em 

31 mar 2020 às 15:03
É preciso reconhecer que profissionais da saúde são pessoas comuns, com medos e fragilidades
É preciso reconhecer que profissionais da saúde são pessoas comuns, com medos e fragilidades Crédito: Jcomp/ Freepik
Em meio aos temores impostos pela pandemia da Covid-19, diversas manifestações de carinho e reconhecimento têm sido dirigidas aos profissionais da saúde no mundo inteiro. As mensagens de apoio são expressas de várias maneiras, como nas palmas que surgem nas varandas dos apartamentos, nas canções e poemas de artistas famosos, nas falas de “pessoas importantes” ou, até mesmo, nas inúmeras declarações de anônimos das redes sociais, que se sentem gratos pela relevância da atuação destes profissionais.
Nesse cenário de incertezas e aflições, é comum atribuir àqueles que se colocam à disposição para enfrentar grandes desafios a alcunha de herói. Assim, o imaginário coletivo tem elevado os profissionais da saúde a essa categoria. É aí que reside um grande perigo e que merece ser debatido.
Primeiramente, é preciso reconhecer que profissionais da saúde são mulheres e homens comuns, ou seja, não estão acima do bem e do mal como os heróis mitológicos. Estão preocupados com os efeitos da pandemia, com a vida das pessoas que amam, com sua própria saúde e com os rumos da economia. Sabem que seus jalecos protegem, mas não são escudos suficientemente fortes, capazes de blindar medos, fragilidades, tristezas e o sentimento de impotência instalado frente ao tamanho desafio.
Em segundo lugar, cabe destacar a necessidade de pensar os profissionais da saúde como trabalhadores. Há uma herança impregnada no trabalho em saúde que o reduz ao ato caritativo ou forma de doação ao outro. Todos os dias, milhares de brasileiras e brasileiros saem de suas casas para exercerem seus ofícios na área da saúde, cuja contrapartida deveria ser a renumeração digna pelo seu trabalho. Todavia, o que se vê são profissionais da saúde com salários defasados, com jornadas exaustivas, expostos a ambientes de trabalho insalubres e com escassos equipamentos de proteção individual, cerceados do seu direito à organização e de greve, e submetidos cada vez mais aos diversos tipos de violência e adoecimentos.
Por fim, ressalta-se que o descaso com os profissionais da saúde também faz parte do processo de desmonte do Sistema Único de Saúde. Cada vez mais disputado pelos interesses espúrios do mercado, o direito à saúde vai sendo violado no país à medida que atende a fome de lucro dos planos de saúde. Nessa lógica de exploração, não há espaço para valorização dos profissionais da saúde, seja no setor público, seja no privado.
Desse modo, é fundamental agradecer a cada profissional da saúde, sem distinção ou juízo de valor, pelo seu trabalho desenvolvido cotidianamente. Porém a crise nos faz um convite para irmos além das palmas. Olhar para a humanidade dos profissionais da saúde e suas condições de trabalho é, também, admitir que eles necessitam de mais respeito, dignidade e cuidado, como pessoas e trabalhadores.
* O autor é enfermeiro e professor do Departamento de Enfermagem da Ufes
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