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André Spalenza

Artigo de Opinião

É coordenador do Connect Fecomércio
André Spalenza

Quando a aposta deixa de ser apenas entretenimento

Para o comércio e os serviços, essa discussão também precisa entrar no radar
André Spalenza
É coordenador do Connect Fecomércio

Publicado em 10 de Outubro de 2026 às 14:00

Publicado em 

10 out 2026 às 14:00

As bets encontraram um espaço privilegiado na rotina dos brasileiros. Estão nas transmissões esportivas, nas camisas dos clubes, nas redes sociais e no celular. Apostar ficou fácil, rápido e disponível praticamente 24 horas por dia. Mas há uma mudança menos visível acontecendo: as apostas também passaram a ocupar espaço no orçamento das famílias.


No Espírito Santo, a dimensão desse mercado chama atenção. Somente em junho de 2026, foram registradas 7,34 milhões de apostas, com R$ 397,7 milhões em apostas. Desde janeiro de 2025, esse número cresceu 47,5% e o valor movimentado, 48,5%.


O dado do Connect Fecomércio-ES impressiona, mas a discussão mais importante talvez não esteja no tamanho do mercado. Está na origem desse dinheiro.


Todo orçamento familiar envolve escolhas. Depois das despesas essenciais, a renda disponível é distribuída entre lazer, vestuário, alimentação fora de casa, serviços, compras, pagamento de dívidas e poupança. Quando a aposta entra nessa equação, passa a disputar os mesmos recursos.

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Essa disputa se torna especialmente relevante quando olhamos para quem está apostando. Estimativas baseadas em pesquisa do DataSenado apontam que cerca de 380 mil capixabas com 16 anos ou mais realizaram apostas em aplicativos ou sites em 2024. Entre eles, aproximadamente um terço declarou gastar entre R$ 100 e R$ 499,99 por mês, enquanto 18% estavam acima dos R$ 500.


Não significa que essas centenas de milhares de pessoas tenham problemas com o jogo. Essa diferenciação é importante. Apostar pode ser uma escolha de entretenimento, assim como tantas outras formas de lazer. A questão econômica surge quando a aposta ultrapassa esse espaço e começa a comprometer recursos que fariam frente a outras despesas.


E esse limite nem sempre é facilmente percebido.


Ao contrário de uma compra tradicional, a aposta carrega a expectativa de retorno financeiro. Depois de uma perda, existe a possibilidade de uma nova tentativa para recuperar o dinheiro anterior. É justamente essa dinâmica que pode transformar uma pequena despesa de lazer em um gasto recorrente e difícil de acomodar no orçamento.


Os sinais também começam a aparecer fora da dimensão financeira. Entre janeiro e julho de 2026, o Espírito Santo registrou 564 atendimentos de saúde relacionados às apostas, envolvendo 247 pessoas. O grupo entre 25 e 34 anos foi o mais presente nesses registros.


Pode parecer pouco diante do universo de apostadores. Mas os atendimentos mostram apenas aqueles que chegaram à rede de saúde. Entre perceber dificuldades financeiras, reconhecer uma relação problemática com o jogo e buscar ajuda existe um caminho que nem todos percorrem.


Para o comércio e os serviços, essa discussão também precisa entrar no radar.

Bets Shutterstock

Não é possível afirmar que o avanço das bets seja responsável, isoladamente, pelo endividamento das famílias ou por mudanças no desempenho do consumo. Inadimplência, renda, juros, inflação e mercado de trabalho continuam sendo determinantes importantes.

 

Estabelecer uma relação direta sem evidências seria simplificar um fenômeno complexo.

Mas também não parece razoável analisar o orçamento das famílias ignorando uma atividade que movimenta centenas de milhões de reais por mês no Espírito Santo.


O crescimento das apostas introduziu um novo concorrente pela renda disponível. Parte do dinheiro que poderia financiar uma refeição fora de casa, uma compra no comércio, uma viagem, a quitação de uma dívida ou uma reserva financeira agora também pode terminar em uma plataforma de apostas.


Por isso, a pergunta que precisamos fazer começa a mudar. Mais do que saber quanto os capixabas apostam, precisamos compreender o que acontece com o orçamento quando esse gasto cresce.


As bets podem continuar sendo entretenimento. O desafio é identificar o momento em que deixam de ser apenas isso.


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