Angelita Scárdua*
Vivemos em uma época na qual as fronteiras entre vida privada e pública foram esgarçadas pela superexposição do cotidiano no mundo virtual. A indústria do entretenimento utiliza-se das plataformas online para capitalizar em torno de seu produto mais rentável: as celebridades! A vida dos famosos, como exposta nas redes sociais, oferece uma fórmula sedutora para alimentar o interesse e o fascínio das pessoas comuns. Ao mesmo tempo em que os famosos exibem o glamour proporcionado pela fama, com cenas de viagens paradisíacas e festas deslumbrantes, eles expõem minúcias de suas rotinas diárias e banais, como ir ao dentista ou amamentar o filho.
Por um lado, a parcela de vida glamourosa das celebridades alimenta a fantasia de que os famosos são especiais. Por outro, o contato diário com aspectos ordinários de suas vidas, via redes sociais, oferece a ilusão de que, no fim das contas, as celebridades são “gente como a gente”! Essa ilusão, por sua vez, nutre a crença de que há uma intimidade entre os famosos e nós, uma vez que somos convidados a adentrar a privacidade de suas vidas.
Assim, essa proximidade artificial entre os famosos e as pessoas comuns faz com que estes queiram participar das vidas daqueles como participam da vida dos próprios familiares, amigos e vizinhos. A partir desse lugar de interação virtual, mediado pela fantasia e pela ilusão de intimidade, fofocamos, tomamos partido, julgamos, absolvemos ou condenamos baseados unicamente nas simpatias ou antipatias que criamos. Em função disso, tendemos a simpatizar e a venerar mais intensamente as celebridades que mais exibem os atributos associados à fama, tais como beleza, juventude e glamour… Mas também tendemos a invejá-las com intenso ardor! Nada conforta mais a pessoa comum quanto ao próprio anonimato, e percepção de irrelevância social, do que ver uma celebridade, ícone de “perfeição”, sofrendo as agruras das pessoas anônimas e “imperfeitas”.
Nesse sentido, rumores em torno de uma suposta traição amorosa, como no recente caso envolvendo os atores José Loreto e Marina Ruy Barbosa, tornam-se o prato principal em um banquete no qual a imagem irretocável dos famosos é canibalizada pelas consequências inevitáveis de sermos apenas humanos. E como tais,suscetíveis às dores e aos prazeres da vida como ela é, e não como gostaríamos que fosse! Afinal, a curiosidade pública em torno da vida privada das celebridades se faz entre uma sincera solidariedade e um perverso desejo de constatar que por trás de todo o glamour há a impossibilidade da felicidade idealizada que o dinheiro, a beleza e a fama, que não temos, parecem prometer.
* A autora é doutora em Psicologia Social pela USP