A pandemia de coronavírus trouxe reflexões interessantes. Quem imaginou que em um mundo onde se tem como escopo coletivo a união dos povos, a construção de pontes e a globalização cultural, pudéssemos defender o isolamento social? Um mundo em que é mais perigoso ir ao supermercado que pedalar na praia? Um mundo dominado pelas regras de mercado, de máxima efetividade na produção e nos resultados, em que pudéssemos pedir socorro ao Estado?
Esta é a humanidade de 2020. Muitos economistas, políticos, investidores e empresários que sempre se intitularam clássicos ou neoclássicos, que abusaram da defesa de um Estado mínimo, admitem agora uma atuação keynesiana, em que o Estado adota medidas sociais de socorro aos pobres, aos trabalhadores e aos empresários.
Mas mais impressionante nesta crise é a percepção sobre industrialização. Nas últimas décadas, sendo a China a fábrica do mundo, poucos defendiam o estabelecimento de indústrias nacionais como política de desenvolvimento econômico. “Designed in California, made in China” era o lema.
Países desenvolvidos investiam em educação e tecnologia, absorvendo as ocupações mais bem remuneradas do mundo, desenvolvendo e desenhando novos produtos. A fabricação, agora com baixo valor agregado, ficava a cargo da China. O Brasil, com baixos investimentos em educação, não só ficava para trás no desenvolvimento tecnológico, como perdia indústria para o colega do BRICS, aumentando a classe de desempregados e trabalhadores informais.
A pandemia se mostrou como uma intensa reviravolta daquelas da série de TV “Billions”. O mundo se vê num excesso de demanda por produtos médicos que são produzidos onde? Pois é. Se historicamente o Brasil tivesse investido massivamente em educação e criado um cenário favorável à indústria nacional, certamente não teríamos tamanha escassez de recursos e nosso mercado e nossa população estariam muito mais preparados para o isolamento, trazendo notável economia ao Estado e melhores condições aos cidadãos para suportar a crise. Em conclusão, a reestruturação do país deverá se pautar no básico, educação e industrialização.
O autor é juiz do Trabalho, professor, mestre em Processo Civil e especialista em Direito do Trabalho