Em política, ninguém desconhece, é proibido cobrar coerências. Políticos mudam de partido como mudam de roupa, adversários históricos se abraçam em novos palanques e até mesmo ministros do Supremo voltam atrás em seus votos pouco tempo após terem decidido questões de fundamental importância para o país.
Mesmo assim, causa admiração a profusão de incoerências que inundam o noticiário político brasileiro. A começar pelos nossos magistrados, tão ciosos em julgar (e condenar) a má conduta dos processados, que se abraçam unidos em defesa de um benefício ilegítimo como é o auxílio-moradia, a ponto de terem feito uma greve de nível nacional. Mesmo que o movimento grevista tenha sido frustrado pela baixa adesão, ficou evidente a defesa do penduricalho feita pelos juízes que chegam a propor que tal benefício seja transformado em um aumento salarial. Ou seja, trocar o seis por meia dúzia.
Outra incoerência gigantesca vem de políticos do PSOL, o partido da vereadora Marielle Franco, brutalmente assassinada no Rio de Janeiro, na noite de 14 de março. Ao mesmo tempo em que, com toda razão, cobram a identificação dos assassinos, fazem passeata contra a intervenção federal na segurança pública do Rio que foi decretada exatamente para coibir a violência desenfreada que toma conta da cena carioca. Sem falar que nos comícios do PSOL há um refrão muito repetido que pede o fim da Polícia Militar.
Mas quem reina absoluto na liderança do ranking das incoerências é o PT, que desde o impeachment de Dilma – e ainda com mais veemência após a condenação de Lula por corrupção passiva e lavagem de dinheiro –, prega ostensivamente a desobediência civil ao não aceitar as decisões da Justiça. A presidente do partido chegou a dizer que “para prender Lula vai ter que matar muita gente”.
Pois bem, o mesmo partido que prega a desobediência à Justiça – e faz coro ao PSOL contra a intervenção na segurança pública carioca – está agora cobrando, com a mesma veemência, a apuração dos dois tiros disparados contra os ônibus que transportavam partidários de Lula em caravana pelo interior do Paraná. Os petistas estão certíssimos em cobrar providências das autoridades. Deveriam também cobrar providências contra o segurança da caravana que, no dia anterior, agrediu um jornalista em Santa Catarina. E, se querem a lei e a ordem, que deixem de fazer campanha eleitoral fora da época permitida pela legislação.
Pode ser uma ingenuidade cobrar coerência de nossos agentes políticos. Mas os brasileiros, sem dúvida, merecem mais respeito dos que se dizem defensores da sociedade.
*O autor é jornalista