Depois de uma tempestade que caiu na última sexta-feira, uma enxurrada de fotos de praias de Arraial do Cabo tomou as redes sociais, causando indignação. É que as imagens mostram as águas do “Caribe brasileiro”, como a cidade ficou conhecida, completamente escuras. As primeiras informações davam conta de um desastre ambiental provocado pelo rompimento de uma adutora de esgoto, mas depois ganhou força a explicação de que a forte chuva fez um lago que recebe dejetos transbordar, e a sujeira chegou ao mar. Os ministérios públicos Federal e do Estado do Rio vão investigar a origem do problema, que levou a prefeitura a declarar impróprias para banho as praias do Forno, dos Anjos, a Prainha e o Pontal do Atalaia, uma área de preservação que guarda abundante vegetação nativa.
Arraial do Cabo, que tem cerca de 30 mil habitantes, recebe, em uma semana de verão, até 300 mil turistas. O Ministério Público do Rio pediu na quarta-feira esclarecimentos à concessionária de esgoto Prolagos e à prefeitura de Arraial do Cabo . A 1ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva do Núcleo Cabo Frio instaurou um inquérito civil. Por sua vez, o Ministério Público Federal abriu uma ação em que pede à Justiça medidas de urgência e punições à prefeitura. Além disso, requer um relatório sobre o caso, um cronograma com iniciativas para a descontaminação da orla em 60 dias e uma solução, dentro de dois anos, para extravasamentos nas estações de tratamento de esgoto. O MP do Rio informou ainda que, em 2004, foi ajuizada uma ação que resultou, 11 anos depois, numa sentença que obriga a prefeitura a mudar a gestão de esgoto lançado na Praia dos Anjos e a pagar indenizações. O município recorre até hoje. Já o Ministério Público Federal lembrou que, em 2016, impetrou uma ação para pedir o fim do lançamento de rejeitos na Prainha e na Praia dos Anjos.
Na quarta-feira, Prainha e Praia dos Anjos ainda estavam com águas escuras, mas o mar do Pontal do Atalaia e da Praia do Forno já havia clareado. Nesta última, surgiu, no fim de semana, uma língua negra. Nas redes sociais, moradores de Arraial do Cabo atribuíram o problema a lançamentos clandestinos de esgoto na região. Porém o engenheiro ambiental Maicon Victorino diz que o local não foi tomado por esgoto: teria recebido, durante a tempestade de sexta-feira, uma grande quantidade de lama e vegetação de um morro junto à orla.
Chefe da Reserva Extrativista Marinha de Arraial do Cabo, gerida pelo Instituto Chico Mendes da Biodiversidade (ICMBio), Bruno Lintomen informou que pediu um laudo ao Instituto Estadual do Ambiente (Inea) para identificar as responsabilidades da prefeitura e da Prolagos. Em nota, a prefeitura afirmou que tem exigido da Prolagos a realização de serviços listados no contrato de concessão de esgoto, assinado em 2016. Já a Prolagos explicou que controla, em Arraial do Cabo, um sistema de coleta em tempo seco, que intercepta o esgoto que passa pela drenagem pluvial e, por meio de estações elevatórias, chega a estações de tratamento.