Apóstolo do Brasil. Padre José de Anchieta recebeu o título, pelo qual é reconhecido em todo o mundo, dentro do prédio erguido pelos jesuítas em Vitória, Capital do Espírito Santo. Foi no Palácio Anchieta, que ainda não era chamado dessa forma, no momento do sepultamento dele, em 1597, que o bispo Bartolomeu Simões Pereira, nas exéquias – ritos e orações realizados pela comunidade cristã para os mortos –, conferiu essa denominação ao amigo.
Anchieta morreu em Reritiba, hoje município de Anchieta, no Sul do Estado, em 9 de junho. Apesar da relação histórica controversa com os nativos, o corpo dele foi levado pelos indígenas, nos ombros, até a Cidade Alta, em Vitória, em um percurso de cerca de 90 quilômetros, que durou três dias. O enterro ocorreu na Igreja de São Tiago – que posteriormente se tornou o Palácio que carrega o nome do padre. O prédio, que virou a sede do governo e cartão-postal do Estado, completa 470 anos neste mês, em 25 de julho de 2021.
O sepultamento foi no local pelo fato de o religioso ter sido provincial (responsável pelos jesuítas da província) da Companhia de Jesus no Brasil e superior dos jesuítas no Espírito Santo. Hoje, há um túmulo simbólico de Anchieta no Palácio, sem restos mortais do padre.
Em vida, Anchieta já era tratado como santo e conhecido como Apóstolo do Brasil, como explica o reitor do Santuário Nacional de São José de Anchieta, localizado em Anchieta, no Sul do Estado, e superior dos jesuítas do Espírito Santo, padre Nilson Maróstica.
"No Santuário, temos uma transcrição do livro de registro de São José de Anchieta, que está nas Ilhas Canárias, em Tenerife, Espanha. Quando ele fez a profissão dos primeiros votos no Brasil, foi anotado na paróquia onde ele foi batizado: 'Entrou para a Companhia de Jesus. Atualmente, vive no Brasil. Tem fama de santo e é chamado de Apóstolo do Brasil'. Isso em vida", contou padre Nilson, sobre o momento da entrada de Anchieta na ordem religiosa.
"Quando ele morreu, um bispo que era amigo dele estava em Vitória e fez as exéquias de José de Anchieta. E falou a seguinte frase: 'A Companhia de Jesus no Brasil é um anel e a sua pedra preciosa está aqui, é o padre José'. Isso é um elogio imenso. Depois, ele complementou: 'Aqui está o Apóstolo do Brasil'. A partir dali, ele é chamado de Apóstolo do Brasil. Tanto é que, hoje, ele é padroeiro do Brasil, mas as pessoas o chamam de Apóstolo do Brasil", disse.
Anchieta recebeu a alcunha, de acordo com o jornalista, escritor e professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) José Antonio Martinuzzo, sobretudo, por três fatores. Primeiro, o padre incorporou o propósito evangelizador da Companhia de Jesus de conhecer profundamente as culturas com as quais ele lidava. "Isso é um passo decisivo para fazer o convencimento de alguém de qualquer coisa", explicou.
O segundo ponto, avalia Martinuzzo, foi a produção de inúmeras obras literárias – são 80, entre cartas, autos, poemas e sermões. Os escritos tinham, na época em que as terras brasileiras ainda eram pouco conhecidas, repercussão dentro do Brasil e fora, como em Roma, na Itália.
Como terceiro aspecto e, talvez, o principal para que Anchieta passasse a ser considerado Apóstolo do Brasil, o professor destaca a gramática do tupi escrita em um ano pelo jovem de 21 anos que aportou no Brasil no século XVI. A "Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil", escrita em 1555, serviu como base para os missionários no país.
"Anchieta codifica a língua dos indígenas para os missionários aprenderem e conversarem com os nativos na língua deles. Só isso já vale o título de Apóstolo do Brasil. Ele criou a tecnologia ou a ferramenta que efetivamente deu velocidade e qualidade ao processo de catequização", pontuou Martinuzzo.
ARQUITETO DA UNIDADE NACIONAL
Padre Anchieta conseguiu, no tempo em que viveu no Brasil, percorrer e atuar em diversos lugares, além do Espírito Santo, no Rio de Janeiro, em São Paulo e na Bahia. A primeira missão do jovem noviço no país foi participar da fundação do Colégio de São Paulo de Piratininga, a origem da maior metrópole da América Latina – atual Pateo do Collegio, no marco zero da capital paulista.
Nesse trabalho, Anchieta esteve ao lado do padre Afonso Brás, construtor da Companhia de Jesus e fundador, em 1551, do Colégio de São Tiago, em Vitória. Ele participou da missa de inauguração do Colégio de São Paulo em janeiro de 1554, pouco depois de ter chegado ao Brasil, em julho de 1553.
Em 1577, foi nomeado provincial da Companhia de Jesus no Brasil (responsável pelos jesuítas da província), sucedendo o padre Manuel da Nóbrega. E exerceu a função até 1585.
"Quando era provincial, Anchieta percorreu praticamente o Brasil todo. Nós podemos dizer, com alguma hipérbole, que Anchieta percorreu o Brasil de Norte a Sul, de Leste a Oeste. Talvez tenha sido o 'primeiro arquiteto da unidade nacional'. Se Anchieta esteve aqui (em São Paulo) como jovem jesuíta, já no Espírito Santo esteve na sua maturidade, como missionário maduro, profundo conhecedor das nossas terras”, explicou o padre Carlos Alberto Contieri, diretor do Pateo do Collegio. Ele ressalta que a expressão "unidade nacional" se refere a considerar toda parte do Brasil como um lugar de missão, como uma única terra.
Anchieta foi beatificado por João Paulo II no dia 22 de junho de 1980. A assinatura do decreto de canonização do Apóstolo do Brasil ocorreu 417 anos após a morte dele, em 24 de abril de 2014, pelo papa Francisco.