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Golfinho-nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus) pode ser visto ao longo de todo o ano no litoral do Espírito Santo
Golfinho-nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus) pode ser visto ao longo de todo o ano no litoral do Espírito Santo Divulgação | Projeto Amigos da Jubarte
Belezas capixabas

As cinco principais espécies de golfinhos que vivem no ES

O boto-cinza é o mais comum de ser visto nas praias. Já a toninha vive em uma área do Norte e corre risco de ser extinta. Método criado na Ufes ajuda na observação desses animais

Larissa Avilez

Repórter

lavilez@redegazeta.com.br

Publicado em 09 de Fevereiro de 2022 às 20:06

Publicado em

09 fev 2022 às 20:06
Golfinho-nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus) pode ser visto ao longo de todo o ano no litoral do Espírito Santo
Golfinho-nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus) pode ser visto ao longo de todo o ano no litoral do Espírito Santo Crédito: Divulgação | Projeto Amigos da Jubarte
Não são raros os registros de golfinhos nadando próximos às praias do litoral do Espírito Santo: eles já deram o (m)ar da graça em Vila VelhaMarataízes e Piúma, por exemplo. Isso acontece porque esses animais vivem na costa capixaba e, com um pouco de sorte, podem ser avistados em qualquer época do ano.
Considerando todos os rios e oceanos, já foram registradas 92 espécies, das quais 47 também verificadas no Brasil e 15 no Estado. A presença delas depende de inúmeros fatores, desde antropológicos, como pesca e poluição química, até ecológicos, como oferta de alimentos e temperatura da água.
No entanto, o comportamento desses cetáceos tem papel fundamental para eles serem avistados: quanto mais costeiro, mais fácil de ser visto. É o caso do boto-cinza (Sotalia guianensis) e do golfinho-nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus) — que ficou famoso no filme Flipper (1963), refilmado na década de 1990.
Golfinho-nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus) nadando nas águas capixabas
Golfinho-nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus) nadando nas águas capixabas Crédito: Leonardo Merçon | Projeto Amigos da Jubarte
Coordenador do Projeto Golfinhos do Brasil, o ambientalista Thiago Ferrari explica que a locomoção do nariz-de-garrafa está muito associada à alimentação e, por isso, esses golfinhos fazem pequenas migrações atrás de cardumes. Já a do boto-cinza é restrita a uma área geográfica menor e tem um habitat mais bem definido.
"Por volta das 5 horas, tem um grupo (de gofinhos) que gosta de se alimentar nas Ilhas Itatiaia, em Vila Velha. Há concentrações também nas proximidades do Porto de Tubarão, em Manguinhos (Serra), e nas Três Ilhas, em Guarapari"
Thiago Ferrari - Coordenador do Projeto Golfinhos do Brasil
O mapeamento dos golfinhos no Espírito Santo, porém, começou de forma experimental apenas em 2014 e só se tornou sistemático quatro anos depois. Em outros locais, pesquisas similares já duram mais de 10 ou 20 anos. Respostas claras sobre esses animais somente são obtidas a longo prazo. 
Golfinho-nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus) no litoral do Espírito Santo
Golfinho-nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus) no litoral do Espírito Santo Crédito: Projeto Amigos da Jubarte | Luan Amaral
"O trabalho feito permite ter uma ideia de biogeografia (onde estão localizados), composição social (como se comportam e organizam), padrões comportamentais (habitat e alimentação) e dados de abundância e riqueza, no que diz respeito à população e saúde desses indivíduos", explica Thiago.
Segundo o ambientalista, indícios apontam que o golfinho-nariz-de-garrafa seja o mais numeroso na costa capixaba. Por outro lado, o boto-cinza se mostra bastante comum, mas sofre com uma lacuna de conhecimento no Estado, que já chegou a ser abordada na Comissão Internacional das Baleias (CIB).
Golfinho nada ao lado de uma baleia Jubarte, no litoral do Espírito Santo
Golfinho nada ao lado de baleia-jubarte, no litoral do Espírito Santo Crédito: Leonardo Merçon | Projeto Amigos da Jubarte
"A pesquisa é importante pela educação ambiental e para complementar o turismo, que gera emprego e renda de forma sustentável. É a melhor forma de conservação, porque só protegemos o que conhecemos", defende o pesquisador.

DESTAQUE: CINCO ESPÉCIES DE GOLFINHOS PRESENTES NO ES

Além do golfinho-nariz-de-garrafa e do boto-cinza, destacam-se outras três espécies que habitam as águas capixabas: o golfinho-pintado-do-atlântico (Stenella frontalis), o golfinho-de-dentes-rugosos (Steno bredanensis) e a toninha (Pontoporia blainvillei) — o mamífero mais ameaçado do Atlântico.
Um golfinho-nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus) flagrado no mar do Espírito Santo
Um golfinho-nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus) flagrado no mar do Espírito Santo Crédito: Joarley Rodrigues | Projeto Amigos da Jubarte
Em comum, eles têm uma gestação que dura 11 meses, de um filhote por vez. Como qualquer mamífero, os golfinhos possuem um período de amamentação após nascer, permanecendo junto da mãe por cerca de um ano. Em geral, todos se alimentam de peixes e pequenos moluscos, como lulas.
Coordenadora técnica e científica do Projeto Golfinhos do Brasil, a mestre em Oceanografia Ambiental Amanda Giacomo elencou as principais características e curiosidades referentes a cada uma das espécies que vivem no Espírito Santo, onde não há cetáceos exclusivos de água doce. Confira:

1. Boto-cinza

Tamanho: pode medir até 2,2 metros e pesar até 121 kg.
Habitat: faixa do mar com até 50 metros de profundidade.
Características físicas: coloração acinzentada, com ventre mais claro, às vezes levemente rosado. A nadadeira dorsal é pequena e triangular. Tem um rostro ("bico") mais fino e arredondado.
Comportamento e curiosidades: é muito costeiro e tem por hábito a desembocadura de rios, porque se alimenta de espécies de peixes que costumam frequentar os estuários. Embora seja natural da água salgada, ele chega a entrar no Rio Doce para se alimentar e só ocorre no Atlântico Sul, entre Florianópolis (SC) e Honduras.
Situação na natureza: considerada "quase ameaçada", segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês).

Grupo de três indivíduos da espécie Tursiops truncatus, popularmente conhecida como golfinho-nariz-de-garrafa
Grupo de três indivíduos da espécie Tursiops truncatus, popularmente conhecida como golfinho-nariz-de-garrafa Crédito: Projeto Amigos da Jubarte | Leonardo Merçon

2. Golfinho-nariz-de-garrafa

Tamanho: pode chegar a 4 metros e pesar em torno de 350 kg.
Habitat: faixa do mar com profundidade superior a 50 metros.
Características físicas: tem o corpo cinza, mas a barriga é mais clara. O rostro é curto e largo. Já a nadadeira dorsal é alta, e a caudal tem uma reentrância. Tem uma separação nítida entre o rostro e o melão ("testa").
Comportamento e curiosidades: é considerado costeiro e pode entrar em estuários. A fêmea faz uma espécie de "transição de cultura" para os filhotes, ensinando-os a ajudar os pescadores na pesca de tarrafa (espécie de rede), no Sul do Brasil, por exemplo. A inteligência é destacada nesta espécie.
Situação na natureza: dados são insuficientes.

Grupo de golfinhos-de-dentes-rugosos (Steno bredanensis) nadando no mar da Grande Vitória
Grupo de golfinhos-de-dentes-rugosos (Steno bredanensis) nadando no mar da Grande Vitória Crédito: Projeto Amigos da Jubarte | Joarley Rodrigues

3. Golfinho-de-dentes-rugosos

Tamanho: pode chegar a 2,7 metros de comprimento e pesar 155 kg.
Habitat: apesar de considerado oceânico na maior parte do mundo, no Brasil ele é avistado próximo à costa. Há registros a apenas 600 metros de distância.
Características físicas: tem uma faixa mais escura que parece uma ampulheta, sendo mais larga na cabeça, se afinando na altura da nadadeira dorsal e aumentado depois. A ponta dos rostros, muitas vezes, é branca.
Comportamento e curiosidades: tem esse nome porque tem dentes com textura bem áspera, típicos da espécie. Tem registro dele a menos de 1 km da praia.
Situação na natureza: é considerado "pouco preocupante" pela IUCN.

Grupo da espécie Stenella frontalis, conhecida como golfinho-de-dentes-rugosos
Grupo da espécie Stenella frontalis, conhecida como golfinho-de-dentes-rugosos Crédito: Estênio Martins

4. Golfinho-pintado-do-atlântico

Tamanho: tem tamanho médio de 2,3 metros e 145 kg de peso.
Habitat: vive em uma faixa do mar com cerca de 100 metros de profundidade.
Características físicas: tem o corpo cinza com pintas em outro tom. Nadadeira dorsal é alta e falcada.
Comportamento e curiosidades: o filhote nasce inteiro cinza e as pintas começam a surgir quando ele fica adulto.
Situação na natureza: considerado "pouco preocupante" pela IUCN.

5. Toninha

Tamanho: é a menor das cinco espécies. Pode chegar a 1,75 metro e 55 kg.
Habitat: é muito costeira e frequenta regiões de estuários. Só é encontrada na Argentina, Uruguai e Brasil.
Características físicas: coloração mais clara, puxada para o bege. A nadadeira dorsal é pequena e bem triangular. Já o rostro é fino e comprido. Tem por volta de 200 dentes pequenos.
Comportamento e curiosidades: a população do Espírito Santo está estimada em menos de 600 indivíduos e se concentra entre o Rio Doce e o distrito de Itaúnas, em Conceição da Barra. É encontrada na região mais ao norte do país.
Situação na natureza: considerado "vulnerável" pela IUCN.

Justamente pela situação de ameaça e devido ao empenho realizado para proteger a toninha, que os pesquisadores possuem dados sobre a população, que conta com poucas centenas de exemplares. Concentrados em uma área pequena, qualquer problema antrópico ou ambiental poderia dizimá-los.
"Há basicamente quatro grupos, divididos após um estudo genético. O do Espírito Santo é isolado geograficamente e quase inviável de sobreviver por muito tempo", lamentou Amanda, que informou que a espécie é classificada como criticamente em perigo pelo Ministério do Meio Ambiente.

Qual a diferença entre boto e golfinho?

A resposta é: nenhuma. Apesar de às vezes se ouvir que, por exemplo, o boto seria de água doce e o golfinho, de água salgada, essa informação não procede. "Alguns lugares chamam esses animais de botos e outros, de golfinhos, mas estamos falando da mesma espécie. Não tem diferença", garante o ambientalista Thiago Ferrari. Segundo ele, as duas palavras são sinônimos. "É o mesmo que acontece com 'cão' e 'cachorro'", esclarece.

Entenda

ESTUDO DE GOLFINHOS: MÉTODO DESENVOLVIDO NO ES

Devido à ausência de informações sobre o boto-cinza no Estado, o Projeto Golfinhos do Brasil passou a trabalhar especialmente focado na espécie. Porém, independentemente dela, os estudos sobre os demais cetáceos continuam e, de maneira geral, se utilizam de quatro principais metodologias:
  • Bordo tradicional: observação feita a partir de uma embarcação no mar;
  • Observação em ponto fixo: destinada aos golfinhos mais costeiros, feita a partir das praias;
  • Monitoramento Acústico Passivo (MAP): hidrofone que capta o som de cada espécie, emitido em uma frequência particular, por meio da qual é possível identificar o animal e estimar a quantidade de indivíduos a mais de 30 km de distância;
  • Dronemonitoramento: lançamento e varredura feita por drone a partir de uma embarcação no mar.
O destaque vai para o último método, que tem DNA 100% capixaba. Desenvolvido pelo Laboratório de Nectologia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), ele foi adaptado para ser feito a partir do mar e pode varrer uma área de até 5 km, coletando imagens com resolução em 4K.
Utilizado no Projeto Golfinhos do Brasil, o método parte de cerca de 15 pontos pré-definidos no mar, em um polígono de pesquisa que compreende da Serra a Guarapari, a uma distância máxima de 20 milhas da costa — ou seja, todo o talude, até a queda da plataforma continental.
Área de atuação do Projeto Golfinhos do Brasil é incluída dentro da linha azul turquesa
Área de atuação do Projeto Golfinhos do Brasil é incluída dentro da linha azul turquesa Crédito: Divulgação | Projeto Golfinhos do Brasil
Antes, as observações eram feitas diretamente pelo olhar humano, que podia contar, no máximo, com um binóculo. "Não tem comparação. O drone consegue ver de cima. Conseguimos ter certeza da espécie e do que ela está fazendo em poucos minutos", comemora o cocriador do método e professor Agnaldo Silva Martins.
Os primeiros testes começaram em 2018, em um monitoramento sobre os impactos dos rejeitos de minério em Regência, no município de Linhares. Durante esse trabalho, encontrou-se a altura e a velocidade de voo ideais para este tipo de pesquisa. "Já vimos golfinhos se alimentando, caçando e mãe brincando com filhote", conta.
Dois indivíduos da espécie Tursiops truncatus (golfinho-nariz-de-garrafa) mergulhando
Dois indivíduos da espécie Tursiops truncatus (golfinho-nariz-de-garrafa) mergulhando Crédito: Karen Bof | Projeto Amigos da Jubarte
"Decolar de um barco é muito mais complexo. O risco de perder o drone ou de um acidente é muito grande. Não é qualquer piloto que consegue. Fora que temos que achar o animal no mar. Nem sempre damos sorte ou conseguimos chegar até ele. E, às vezes, quando conseguimos, ele mergulha e some", relata o professor.
Em fevereiro de 2021, o método foi publicado em uma revista científica internacional e, no mesmo ano, já estava sendo "muito consultado", segundo Agnaldo, somando centenas de acessos em poucos meses.

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