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Santuário Palácio Anchieta/Arte Geraldo Neto
260 anos longe

Palácio Anchieta: pandemia interrompe retorno de jesuítas ao edifício que construíram

Preservado na sede do governo do Espírito Santo, túmulo de Anchieta recebeu, em 2019, uma missa 260 anos após a expulsão dos jesuítas. Coronavírus impediu retomada de ritual histórico em 2020 e 2021

Samanta Nogueira

Editora de Política

snogueira@redegazeta.com.br

Publicado em 22 de Julho de 2021 às 01:03

Publicado em

22 jul 2021 às 01:03
Missa celebrada em 2019 no Palácio Anchieta marca reaproximação dos jesuítas com o prédio
Missa celebrada em 2019 no Palácio Anchieta marca reaproximação dos jesuítas com o prédio: padre Bruno Franguelli, padre Nilson Maróstica e padre José Célio Crédito: Santuário de Anchieta/Arte Geraldo Neto
As paredes do Palácio Anchieta, erguidas há quase meio milênio, guardam até hoje o túmulo do único santo que viveu e morreu em terras capixabas. Em uma das esquinas internas do prédio localizado na Cidade Alta, em Vitória, estão resumidas as lembranças do padre José de Anchieta, o jesuíta que ajudou a fundar as bases do Espírito Santo e foi sepultado na edificação, que hoje funciona como a sede do governo do Estado e que completa 470 anos neste mês, em 25 de julho de 2021.
Por mais de dois séculos e meio, o propósito do Palácio na vida cotidiana da Capital permaneceu totalmente diverso daquele para o qual foi fundado, em 1551, pelo padre Afonso Brás. O Colégio e a Igreja de São Tiago eram estruturas católicas. Desde que os jesuítas foram expulsos dos reinos de Portugal, em 1759, a finalidade religiosa acabou e a construção foi transformada em espaço de representação do poder político.
Em 2019, 260 anos após a expulsão, os jesuítas voltaram a olhar para o Palácio que leva o nome de um dos seus. Era o quinto ano da canonização do padre. No dia 10 de junho daquele ano, um pequeno grupo de herdeiros da fé do sacerdote espanhol celebrou uma missa na mesma área em que Anchieta pregava e lecionava. Antes, apenas visitas pontuais e esporádicas eram realizadas por eles ao túmulo.
Matéria especial sobre o Palácio Anchieta, Sede do Governo do ES
Túmulo simbólico de José de Anchieta é preservado na sede do governo do Espírito Santo Crédito: Fernando Madeira
A celebração foi realizada como parte das comemorações da Festa Nacional de São José de Anchieta. Foi um momento histórico, pensado como início da retomada de um contato mais direto com o prédio que teve grande significado para os jesuítas. Emoção e "alegria interior" definiram o ritual, contou o reitor do Santuário Nacional de São José de Anchieta e superior dos jesuítas do Espírito Santo, padre Nilson Maróstica.
"Ao celebrar no Palácio, tive a sensação de 'meu Deus, que responsabilidade. Eu sou sucessor do padre José de Anchieta, de São José de Anchieta'. Dá um peso nos ombros da gente, de ter que dar um bom testemunho. E também aquela emoção de poder saber que ali esteve o corpo de um santo. Realmente, foi um momento assim, como a gente chama na Companhia de Jesus, de consolação, de alegria interior", afirmou.
O vínculo dos capixabas com os jesuítas é inquebrável. Nasceu do fundador da Companhia de Jesus, Santo Inácio de Loyola, a frase "Trabalha como se tudo dependesse de ti e confia como se tudo dependesse de Deus". Uma versão reduzida dela está na bandeira do Espírito Santo. Depois da última missa, a ideia dos jesuítas era manter celebrações anuais e discretas no mesmo local em que o padre foi primeiramente sepultado.
A pandemia do novo coronavírus se instalou e os planos foram frustrados. Em 2020 e 2021, as missas foram suspensas. O reitor do Santuário de Anchieta espera poder voltar ao túmulo simbólico, onde era o altar-mor da Igreja de São Tiago, para rezar a Deus e ao padre – o que depende de tratativas com o governo do Estado, a quem pertence o imóvel.

260 anos

Período entre a expulsão dos jesuítas do Espírito Santo e a realização da missa no Palácio Anchieta
Padre Nilson e a Companhia de Jesus não consideram o Palácio Anchieta um lugar de devoção e peregrinação. O prédio histórico tem outra configuração física, além de protocolos de segurança. O Estado também trata como inviável porque, obviamente, uma rota de peregrinação afetaria a nova vocação do prédio e as funções de repartição pública.
A construção deixou de ter caráter religioso justamente com a expulsão dos jesuítas do Brasil, determinada por Dom José I, rei de Portugal, influenciado pelo poderoso Marquês de Pombal. O membro da nobreza pretendia fortalecer e modernizar a monarquia portuguesa, mas via nos padres um entrave. A influência dos religiosos rivalizava com o poder das autoridades civis. A realeza também tinha interesses financeiros na Companhia de Jesus, porque os missionários criaram um rico patrimônio que poderia ser incorporado à Coroa.
Diferentemente de outros locais, onde a saída dos jesuítas ocorreu com violência, no Espírito Santo, o movimento foi pacífico, conforme conta o historiador e padre Serafim Leite.
"No dia 22 de janeiro de 1760, de batina e capa, levando ao peito o crucifixo dos seus votos, entraram no pequeno navio e deixaram o Colégio e a Vila de Vitória, a caminho do Rio e do exílio. O povo do Espírito Santo acorreu a despedir-se e a protestar com lágrimas o levarem-lhe assim os padres", diz trecho do livro "História da Companhia de Jesus", escrito por Serafim Leite entre 1933 e 1950. 
Os jesuítas foram exilados e os bens deles confiscados. A partir de então, o imponente edifício da Cidade Alta teve a função alterada. Perdeu vocação religiosa e, em 1798, tornou-se Palácio do Governo.
ESPECIAL PALÁCIO ANCHIETA
Fachada do Palácio Anchieta em abril de 1986 Crédito: Nestor Muller/Arquivo A Gazeta
Foi só em 1945, no governo de Jones dos Santos Neves, que o prédio recebeu o nome pelo qual é conhecido hoje, Palácio Anchieta, em homenagem ao padre que se dedicou a disseminar os preceitos cristãos usando particularidades locais e que mantinha relação de proximidade com os indígenas.
"Por ser a sede do Poder Executivo Estadual e em decorrência do Estado laico, o Palácio não manteve a vocação religiosa, apesar de preservar a memória dos achados arqueológicos, como a lápide do túmulo de Anchieta", afirmou o governo do Espírito Santo, em julho de 2021, por nota.
A preservação do túmulo, explica o jornalista e professor José Antonio Martinuzzo, mostra como o poder religioso e o poder político estiveram juntos na construção do que é o Espírito Santo hoje.
"Quando você tem um prédio de poder laico que mantém e sustenta um símbolo do poder religioso, está querendo dizer, nada mais, nada menos, da natureza da nossa vida política. De como, na história da colonização e da colonização espírito-santense, o poder político esteve em conjunto com o poder religioso", afirmou o autor do livro "Palácio Anchieta: Patrimônio Capixaba"(2012).
"Aquilo que a expulsão dos jesuítas tentou evitar, ela não conseguiu apagar. Marquês de Pombal até conseguiu evitar essa disputa de poder político e religioso com o gesto, mas não conseguiu apagar a importância da religião na colonização"
José Antonio Martinuzzo - Jornalista e professor

TÚMULO DE ANCHIETA

Padre José de Anchieta morreu em Reritiba, atual município de Anchieta, no Sul do Espírito Santo, em 9 de junho de 1597, e foi enterrado junto do altar-mor da Igreja de São Tiago. O sepultamento ocorreu no Colégio por Anchieta ter sido provincial da Companhia de Jesus no Brasil e superior dos jesuítas no Espírito Santo.
Imagem ilustra a morte de Padre José de Anchieta, em 1597
Imagem ilustra a morte de Padre José de Anchieta, em 1597 Crédito: Acervo Santuário de Anchieta
Os ossos do padre pouco ficaram no local. Foram retirados antes mesmo da expulsão dos religiosos do país. Em 1609, parte dos ossos foi enviada para a Catedral de Salvador, na Bahia, a pedido do padre Claudio Acquaviva, superior geral da Companhia de Jesus. O fêmur permaneceu exposto na Igreja de São Tiago até 1610, quando foi transferido para Roma, na Itália.
A não permanência dos restos mortais do santo na Capital capixaba não quer dizer que ele ou a cidade não são importantes. É o contrário disso. As palavras são do padre Nilson, proferidas na última missa realizada no Palácio, celebrada em 2019.
"São José de Anchieta foi levado para Vitória porque era importante e, depois, foi tirado de Vitória porque era mais importante. Ia ser levado para Roma para dar início ao processo de canonização dele. Quando ele já estava na Bahia, foi dado início ao processo”, relembrou.
Após a expulsão dos padres, os ossos e o manto de Anchieta foram enviados a Portugal. Em Vitória, um pedaço dos ossos ficou com uma família que assumiu o compromisso de propagar a devoção ao santo.
Matéria especial sobre o Palácio Anchieta, Sede do Governo do ES
Lápide do túmulo de José de Anchieta é exposta no Palácio do Governo Crédito: Fernando Madeira
Entre 1912 e 1916, no processo de adaptação da Igreja de São Tiago para receber a Imprensa Oficial e a Secretaria de governo, a lápide do túmulo foi removida e houve a confirmação de que não havia mais restos mortais no local, de acordo com o historiador Luiz Serafim Derenzi, no livro "História do Palácio Anchieta", de 1971.
Já em 1922, um túmulo simbólico foi construído no local, com preservação da lápide em mármore carrara com arabescos em mármore negro, esculpida em Portugal.
Hoje, parte dos ossos do religioso está no Santuário Nacional de São José de Anchieta, no município de Anchieta, no Sul do Espírito Santo, e na Igreja de São José de Anchieta, no Pateo do Collegio, complexo histórico-cultural-religioso da Companhia de Jesus, em São Paulo. No Palácio, em Vitória, há apenas um pequeno fragmento retirado do fêmur esquerdo do santo, relíquia que o governo do Estado recebeu da ordem dos jesuítas em 2007.

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