Quem olha o Palácio Anchieta de longe, com sacadas e colunas bem ornamentadas, acredita que o prédio é simétrico. Mas tudo não passa de um jogo visual. Basta se aproximar da fachada principal do edifício, posicionada de frente para a Baía de Vitória, para perceber que um dos lados do palácio é maior do que o outro.
"Nós temos oito colunas na fachada frontal, quatro de cada lado do portão. Mas no lado esquerdo as colunas são mais largas, portanto existe uma falsa proporção", explica a arquiteta e doutora em Preservação do Patrimônio Cultural Viviane Pimentel.
A impressão de simetria é alcançada pelo excesso de adornos e detalhes arquitetônicos que foram inseridos na parte externa do palácio durante a primeira grande reforma, entre 1908 e 1902.
Na época, o então governador Jerônimo Monteiro contratou o engenheiro francês Justin Norbert para dar uma cara palaciana ao prédio, que ainda mantinha características de uma igreja. A ideia era eliminar resquícios do período colonial e mostrar que o Espírito Santo vivia um novo momento.
"Havia uma tentativa de apagar estilos fortemente arraigados à Coroa portuguesa, a imagem religiosa daquele prédio, que tinha uma estrutura extremamente simples. Então Norbert tira a entrada principal da lateral do prédio, voltada para a Praça João Clímaco, e traz ela para o Porto de Vitória", explica a arquiteta Áurea Lígia Miranda Bernardi, que é gerente de Patrimônio Histórico do Palácio Anchieta.
"Ali, ele insere um pórtico, com uma escadaria e inclui ornamentos em toda a fachada", completa.
As inserções que deram volume à parte externa do prédio marcam a arquitetura eclética, com inspiração neoclássica, muito usada na Europa naquele período e sinônimo de desenvolvimento e progresso. Segundo Áurea Lígia, uma das características do ecletismo é a mistura de estilos do passado, o que dá ao arquiteto a liberdade para criar.
"A arquitetura eclética faz junção de diferentes estilos, como o barroco, a arte grega, romana, tudo com muito detalhe"
"Por permitir o uso de tantas referências, a simetria é uma regra a ser respeitada. E a gente vê que a busca por essa simetria, que não existia no prédio colonial, marca a reforma do Palácio”, destaca.
Confira os detalhes arquitetônicos escondidos na fachada:
PÓRTICO
Desenhado para abrigar a nova entrada do Palácio e dar a sensação de simetria ao prédio, é marcado pela introdução do portão principal. No pórtico é possível observar desde elementos decorativos, como colunas, adornos e ornamentos de alto relevo, como arcos.
ARCOS
Os arcos fazem parte do pórtico e dão abertura à fachada principal e uma leve sensação de movimento. São inspirados no Arco de Constantino, na Itália, e representam triunfo e vitória.
ALTO RELEVO
Os ornamentos de alto relevo representavam poder e contemporaneidade na época. Eles podem ser observados por meio de colunas, nas sacadas, nos adornos nas janelas e decorações nas fachadas.
COR
O amarelo foi resgatado durante o restauro do Palácio Anchieta, em 2004, e é a cor usada em prédios públicos da Primeira República. Os ornamentos em tons mais claros, branco e creme, são características do ecletismo, para valorizar o relevo e os detalhes da arquitetura.
VARANDA
Posicionada de frente para a Baía de Vitória, no pavimento superior do prédio, a varanda faz parte do pórtico, inserido durante a reforma de Jerônimo Monteiro para dar volumetria ao prédio. Ela marca a utilização do edifício como sede de poder, com a introdução de um espaço para as autoridades se comunicarem com o povo do alto do edifício.
FRONTÃO
É uma estrutura de formato triangular que decora a parte superior da fachada principal. Geralmente é composto por ornamentos com grande carga simbólica. No frontão do Palácio Anchieta é possível observar:
- Águia
Localizada no topo do Palácio Anchieta, fica acima de todos os outros elementos arquitetônicos para simbolizar o poder. A águia representa força, sabedoria e é muito utilizada em decorações de palácios em toda a Europa.
- Grifo
Criatura mitológica que tem o corpo de leão, cabeça e asas de uma águia. Os grifos eram tratados como seres guardiões na Grécia e representavam a vigilância de um espaço.
- Brasão
O brasão do Espírito Santo fica ao centro do frontão e representa a soberania, símbolo do Estado. Na fachada do palácio ele é ladeado de figuras alegóricas como os grifos e os anjos, que “guardam” o governo.
- Anjos
Em volta do brasão, representam a proteção do governo.
ESCADARIA BÁRBARA LINDENBERG
Faz parte do conjunto arquitetônico do Palácio Anchieta e substituiu uma antiga escadaria que havia no local. Com um estilo barroco, ela representa o caminho do porto até a sede de governo. As curvas foram feitas em busca de uma simetria, com inserção de elementos decorativos e inspirados na arquitetura eclética. Ao longo da escada há seis estátuas feitas com mármore de carrara. Elas são:
- Quatro Estações
As quatro estátuas têm uma referência mitológica e representam as quatro estações do ano: primavera, verão, outono e inverno. Elas estão dispostas ao longo da escadaria e dão a sensação de passagem de tempo à medida que se sobe os degraus.
- Menino com Delfim e Menina com Delfim
Localizadas em diferentes pontos da escada, são formadas por uma criança e um delfim, também chamado de golfinho. Há diferentes explicações para a escolha desses elementos, associados com o mar. Uma delas é uma representação do Porto de Vitória e a economia de pesca. Outra seria uma retratação, por meio da fonte, dos avanços da infraestrutura de Vitória, que tinha água encanada.