Reconhecido como um dos maiores catequizadores católicos no Brasil, padre José de Anchieta manifestou múltiplos dons ao longo de anos de missões realizadas em território capixaba. Não apenas aprendeu o tupi para se comunicar com os indígenas como também desenvolveu uma gramática da língua.
Foi professor, historiador, poeta e dramaturgo. Escreveu ao menos doze peças teatrais por meio das quais transmitiu conhecimentos e a doutrina cristã de um jeito mais aprazível que os sermões tradicionais.
Nos últimos nove anos de vida, na Capitania do Espírito Santo, o jesuíta produziu oito obras. Entre elas, destaca-se o "Auto Na Vila de Vitória" ou "Auto de São Maurício". A peça foi encenada, no fim do século XVI, no entorno da Igreja de São Tiago, em Vitória – prédio que hoje é o Palácio Anchieta.
Um dos personagens era "Governo". O sacerdote usou a metáfora na peça para explicar o contexto político da época e transmitir o que defendia como sendo as boas diretrizes administrativas.
Quiseram os caminhos da história que o palco em que José de Anchieta catequizou, ensinou e encenou o Governo, dando forma às suas ideias, viesse a se tornar o prédio que mais simboliza o poder político capixaba nos dias de hoje: a sede do governo do Espírito Santo.
Desde 1798, o espaço funciona como local de trabalho dos governadores capixabas. O Palácio Anchieta completa 470 anos em 25 de julho de 2021.
O público das peças do padre José eram visitantes que passavam pela capitania, colonos e indígenas, que também atuavam nas produções. A variedade dos espectadores fez com que o Auto Na Vila de Vitória fosse escrito e encenado em português e em castelhano.
O Auto Na Vila de Vitória é a peça teatral mais extensa e mais bem elaborada do jesuíta, datada de 1595. No livro "Teatro de Anchieta" (1977), o padre Armando Cardoso, um dos principais biógrafos do santo, relata que o auto foi um pedido da Confraria de São Maurício, sediada séculos atrás na Igreja de São Tiago, para uma data especial.
O 22 de setembro era o dia do protetor. O objetivo era agradecer pelo fato de os donos da capitania terem se livrado de epidemias, seca e ataque de índios inimigos e corsários ingleses e franceses.
Na política, o Espírito Santo passava por desafios, o que influenciou a obra de Anchieta. Desde a morte do donatário Vasco Fernandes Coutinho Filho (1589), não havia um sucessor homem e a capitania era motivo para guerra de ambições e discórdias. O partido de Felipe II, rei espanhol que comandava Portugal na época, queria que o território voltasse para a Coroa. A família do donatário era contra.
Os jesuítas, principalmente Anchieta, influente no período, conseguiram que o governo passasse para as mãos da viúva de Vasco Fernandes, Luísa Grimaldi, a Capitoa, assistida pelo capitão adjunto e cunhado dela, Miguel de Azeredo. Em 1593, na ausência do padre, o governo seguiu para o comando de um parente mais próximo, Francisco de Aguiar Coutinho.
"A peça teatral representou a instabilidade pela qual passava a capitania naquele momento. Com a morte do donatário, a esposa assume e posteriormente é retirada. A Capitoa, como era chamada, é, portanto, um sinal de resistência", explicou o professor de Língua e Literatura Latina da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Raimundo Carvalho.
De acordo com o professor, Anchieta buscava, com a peça teatral, fazer com que as pessoas refletissem sobre seus atos e agissem conforme os preceitos da Igreja. A ideia de justiça estava sempre presente, ressaltou Carvalho.
"Além da situação política não ser muito estável, havia os ataques inimigos, como dos piratas franceses e holandeses, a seca e as epidemias pelas quais passaram a Vila de Vitória"
"Assim, Anchieta tanto tratou do momento histórico local como também mostrou aos visitantes espanhóis, que compunham a plateia, as práticas que um bom governo deve ter. Um governo que busca a justiça", contou.
As mensagens cristãs e de justiça também estavam presentes via personagens metafóricos. Os pares "Diabo" e "Lúcifer", no início, e o "Temor" e o "Amor de Deus", no final, davam vida às condutas que Anchieta queria retratar.
"Eu tenho dos assistentes,
filhos de Deus, meu Senhor.
Um deles é seu Temor
que governa bem as gentes,
outro é seu santo Amor.
Sem estes não pode haver
bom governo nem vitória"
filhos de Deus, meu Senhor.
Um deles é seu Temor
que governa bem as gentes,
outro é seu santo Amor.
Sem estes não pode haver
bom governo nem vitória"
Trecho da fala do Governo no roteiro do Auto Na Vila de Vitória ou Auto de São Maurício
Feitas as devidas ressalvas históricas, a recomendação aos governos para que promovam a justiça permanece atual. "O 'bom Governo' é aquele que promove e, prioritariamente, pratica a justiça como a principal virtude das instituições políticas e sociais. E essa escolha pela prioridade da justiça foi o que constituiu a Ilha de Vitória enquanto comunidade política, e, assim, tal constituição deve ser devotamente conservada no tempo", afirmou o professor.
O Auto Na Vila de Vitória ou Auto de São Maurício, de acordo com o padre Armando Cardoso, um dos principais biógrafos de Anchieta, é a peça teatral mais extensa e mais bem elaborada do jesuíta, datada de 1595.
PODER POLÍTICO
Para o jornalista, escritor e professor da Ufes José Antonio Martinuzzo, essa encenação, que traz aspectos políticos de cinco séculos atrás, está relacionada à própria atuação dos jesuítas no Brasil.
"Os jesuítas participaram do processo de colonização do Brasil de um ponto privilegiado. Eles chegaram aqui com os governadores gerais, em uma tentativa do governo português de dar uma retomada no processo de ocupação e de auferição de lucro com a colônia, com as terras que eles tinham tomado"
"Sacerdotes como José de Anchieta e Manoel da Nóbrega participaram das negociações com os indígenas, das batalhas entre as forças europeias e as forças indígenas. Eles participavam efetivamente da vida política nacional, porque eles eram agentes evangelizadores da Igreja e a Igreja Católica era parceira do empreendimento do império português", concluiu Martinuzzo.