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Ilha de Trindade foi disputada por várias nações – e inclusive por um monarquista americano radicado na França Geraldo Neto | A Gazeta
Ilha de Trindade

Pedacinho do ES no Atlântico quase teve um príncipe e virou país

Ideia surgiu do francês James Harden-Hickey, que reivindicou a posse da região por volta de 1893; com o fracasso do plano, sem esperanças, ele tirou a própria vida no final do século XIX

Maria Fernanda Conti

mfconti@redegazeta.com.br

Publicado em 25 de Junho de 2023 às 08:55

Publicado em

25 jun 2023 às 08:55
Ilha de Trindade foi disputada por várias nações – e inclusive por um monarquista americano radicado na França Crédito: Geraldo Neto | A Gazeta
Alvo de disputa entre vários países europeus, a Ilha da Trindade, hoje pertencente ao Espírito Santo, virou oficialmente território brasileiro com a independência do Brasil. Tudo corria bem, até que James Harden-Hickey, um cidadão norte-americano radicado na França, se deparou com a região inabitada e decidiu, literalmente, tomá-la para si em 1893. Estava ali fundado (ou quase) o Principado da Trindade.
Em conversa com A Gazeta, a jornalista Bárbara Rubira, que estudou a fundo o assunto, explicou que existem algumas versões diferentes para a história. Mas a principal delas, retratada no livro "Real Soldiers of Fortune" (Verdadeiros Soldados da Fortuna, em tradução literal), de Richard Harding Davis, é de que ele era um monarquista assíduo, fazendo com que se tornasse "famoso" pela luta contra a república francesa, onde morava por volta de 1890. O homem teria nascido nos Estados Unidos, mas ficou pouco tempo no país. 
"Quando Napoleão III é deposto, em 1870, ele não gosta muito. James Harden-Hickey começa a participar, então, de um periódico satírico, com muitas críticas à França. Houve brigas judiciais, confusões, um monte de coisa. Porém, em certo momento, o periódico acaba devido à morte do 'patrono' (o dono). Ele fica meio sem rumo, porque a vida do James era fazer esse jornal", destacou.
Apesar de ter filhos e esposa, o monarquista largou tudo para viajar, em um primeiro momento, até à Índia. No meio do caminho, contudo, ele parou na Ilha de Trindade – e tudo indica que ficou muito encantado com o que viu.
"Não é possível afirmar com certeza o motivo que fez ele parar na ilha. Existem várias histórias de tesouros, de lendas lá na região, mas também pode ter sido algum problema meteorológico, na embarcação, enfim. Também pode ser sido algo proposital dele ou de outro tripulante"
Bárbara Rubira - Jornalista e pesquisadora
Daquele dia em diante, o homem tinha apenas uma ideia em mente: tornar-se o príncipe, e tecnicamente dono, de Trindade. Ele retornou aos Estados Unidos já no final do século XIX, onde casou pela segunda vez, mas não desistiu do plano. James abriu até um escritório em território norte-americano para começar a tratar sobre os assuntos do principado, inclusive contando com o apoio de um amigo que virou "chanceler de Trindade".

Deu o que falar...

"Começam a rodar nas grandes potências informações de que ele era o soberano de Trindade. Ninguém deu muita bola, porque ele era só um cara qualquer, dizendo que o território era dele. Só que causou certo barulho na imprensa da época. Faziam muita chacota. Saíram matérias até no New York Times e no Jornal do Brasil, por exemplo", destacou Bárbara.
Principado foi citado no Jornal do Brasil, no Rio de Janeiro, em 1895
Principado foi citado no Jornal do Brasil, no Rio de Janeiro, em 1895 Crédito: Reprodução | Acervo | Jornal do Brasil
James Harden-Hickey afirmava que diversas nações já tinham reconhecido o principado, mas não há nenhuma evidência desse fato, conforme frisou Bárbara. Mesmo assim, ele idealizou até uma bandeira, cujo formato seria de um quadrado vermelho com um triângulo amarelo. O monarquista também descreveu em vários documentos como seria a colonização e o governo.
"Disse ainda que ia instaurar uma ditadura militar, mas não sei contra quem, porque o local não era habitado", ressaltou Bárbara. 
"Na verdade, parece ridículo, de certa maneira, que ele tenha delimitado isso. Mas não é muito diferente de como era qualquer delimitação de terra na História. Ele virou piada, só que não era algo tão surreal você passar por um lugar e falar ‘isso daqui é meu’. O fato foi que ele não conseguiu. Acho que teve uma visão meio romântica do que seria ter poder"
Bárbara Rubira - Jornalista e pesquisadora
Entretanto, pouco tempo depois, houve uma nova disputa pelo território da ilha. "O Reino Unido era uma potência muito mais influente e poderosa do que o Brasil, que tinha acabado de virar república, mas a gente ganhou. E ele não desistiu mesmo assim. Só que acabou suprimido pela força dessas potências", completou. 
James idealizou até uma bandeira, cujo formato seria de um quadrado vermelho com um triângulo amarelo  Crédito: Wikipedia Commons

Decepção e morte

O monarquista morreu em 1898, aproximadamente cinco anos após começar a falar que era proprietário de Trindade. Com dificuldades financeiras e descredibilizado pelo público, ele tirou a própria vida no dia 19 de fevereiro daquele ano, em um quarto de hotel no Texas, também nos Estados Unidos.
"O final da vida dele foi difícil. Continuou casado, mas pouco via a mulher e os filhos. Sempre estavam fisicamente distantes. Também acaba perdendo o 'patrocínio' do sogro, que era quem bancava todas as loucuras dele. Mental e financeiramente ele não fica legal", pontuou Bárbara.
"Ele é encontrado morto em um hotel, com uma carta endereçada à esposa. E no quarto, segundo contam historiadores, tinha uma coroa, que seria a coroa de Trindade. Outra curiosidade: depois que ele passou pela ilha e ficou um tempo quieto, sem esperanças de colocar o plano em prática, escreveu um livro sobre a filosofia do suicídio".

Trecho de uma reportagem de 1893 sobre o principado

"Se os planos do Barão James A. Harden-Hickey forem executados, haverá uma nova nação criada na face da Terra até a próxima primavera. Parece um empreendimento notável, mas o Barão Harden-Hickey está confiante de que pode ser realizado com sucesso e com a mesma facilidade de muitas outras conquistas notáveis e aparentemente impossíveis. Ele não se propõe a derrubar nem dividir nenhum governo estabelecido. Ele não vai invadir o território de ninguém ou interferir nos direitos de ninguém. Ele encontrou um lugar onde ninguém mora, que, segundo ele, ninguém possui e que não é reivindicado entre as posses de nenhuma nação existente."

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