Nos últimos 470 anos, a sede do governo do Espírito Santo passou por diversas reformas. Mas nenhuma delas buscou resgatar as heranças do que um dia já foi igreja e colégio de jesuítas. Até que, em 2004, iniciou-se uma das maiores obras do edifício: o restauro do Palácio Anchieta.
"Eu bati o martelinho em cada centímetro daquela fachada. Cada descoberta era uma aventura, uma conquista. Foi o diagnóstico mais sensível que eu já fiz", lembra o artista plástico Rafael Rodrigues, restaurador há quase duas décadas.
Rafael é de Santa Catarina e trabalhou no restauro de outras sedes de governo, entre elas o Palácio Cruz e Souza, naquele Estado. Ele fez parte do grupo de arquitetos, arqueólogos, historiadores e engenheiros que se dedicaram, no decorrer de cinco anos, a recuperar a história do Palácio Anchieta, apagada durante as reformas.
5 ANOS
FOI O TEMPO QUE LEVOU A OBRA DE RESTAURO DO PALÁCIO ANCHIETA
O trabalho, contudo, não foi fácil. "O prédio estava extremamente danificado, não tinha um pedaço que não tinha problema", lembra Rafael.
Os problemas se manifestavam por meio de rachaduras nas paredes, infiltrações e goteiras. A situação do prédio tornava insustentável a permanência de uma sede de governo no local, o que levou o então governador Paulo Hartung a conduzir a obra.
"Era reboco descascando, telhado furado. Quando chovia, o gabinete do governador ficava cheio de água e o parquet do Salão Nobre chegava a boiar. Isso tudo com 350 pessoas trabalhando lá dentro", conta a gerente de Patrimônio do Palácio Anchieta, Áurea Lígia Bernardi.
Restauração da fachada do Palácio Anchieta
A obra foi financiada pela Lei Rouanet, com apoio de empresas como a Petrobras e a Vale. A primeira parte contou com um levantamento histórico e iconográfico, na época realizado pela equipe do arquiteto Pedro Canal Filho, à frente do Instituto Goia.
"A gente precisava entender como aquele prédio se formou. Para isso, fizemos um levantamento de livros, de fotos antigas e conversamos com pessoas para ter a memória oral de quem passou pelo palácio"
"Procuramos saber onde estava a igreja, o que tinha no pátio, qual o tamanho das estruturas. Daí, fizemos um esboço das plantas que o prédio teve ao longo dos séculos, para saber como ele foi alterado", conta Canal.
ÁGUIA SEM CABEÇA
Foi a partir desse levantamento arquitetônico que a obra, de fato, começou. A execução aconteceu primeiro na fachada do prédio e no telhado, o que deu bastante dor de cabeça para o grupo. Isso porque, além do alto estado de degradação, algumas partes do edifício não tinham registros em fotos.
"O trabalho de um restaurador vai até onde ele consegue recuperar a história do criador, ele não pode criar algo da cabeça dele. Alguns elementos da fachada a gente acabou nem mexendo, porque não tínhamos referências", explica Rafael.
Um desses elementos foi a águia, que fica no topo do telhado do Palácio Anchieta, de frente para o porto. A ave estava sem cabeça e não havia imagens que mostrassem como ela era antes. No entanto, foi possível buscar referências em duas águias menores, que ficavam na fachada principal.
"Eu fiz um compasso de proporção e comparação, das medidas dessas águias menores e dos detalhes, como bico e outros relacionados à volumetria. E, a partir disso, remodelei a cabeça que não tinha lá", conta Rafael, que lembra um fato engraçado envolvendo o restauro da ave.
"Quando eu terminei o restauro da águia, esqueceram de tirar o andaime do prédio. Deu um vento à noite e trincou a asa dela. Aí tive que voltar lá e consertar."
PINTURA NAS PAREDES
Logo após a obra da fachada, teve início o restauro do interior do prédio. Nessa parte, uma técnica muito utilizada foi a prospecção, para remover as camadas de pintura das paredes até chegar ao mais próximo do original.
Segundo Pedro Canal, a prospecção revelou alguns fatos interessantes, como a suíte do governador ter sido o cômodo que mais ganhou camadas de tinta durante os anos.
"Geralmente, as primeiras-damas chegavam e queriam mudar a cor. Nós encontramos pelo menos 16 camadas de pintura sobrepostas ali", revela o arquiteto, que considera o restauro do Salão Nobre – anexo ao gabinete do governador – a parte que mais deu trabalho.
"Naquele salão, tinha uma pátina que exigia uma sobreposição de camadas, não era uma pintura uniforme. Na época, o salão estava pintado de rosa e branco e fizemos muitos estudos até conseguirmos nos aproximar da cor mais antiga, que era um verde mais suave. Essa mudança deu uma outra ambiência ao lugar", destacou.
Obras de restauro na parte interna do Palácio Anchieta
ESCAVAÇÕES
Foi por meio do trabalho de arqueologia que a obra de restauro pôde resgatar partes ocultas do prédio construídas no período jesuítico, como um poço artesiano, localizado no pátio do Palácio, e o esgrafito, uma técnica artística de origem árabe em um dos altares laterais da antiga igreja.
Os achados arqueológicos, contudo, não se resumem apenas a grandes descobertas. Parte deles foi encontrada a partir do "lixo" das pessoas que um dia moraram ali, o que permitiu ao arqueólogo Luiz Viva entender a história dos grupos que passaram pelo prédio.
"A cultura material desses prédios históricos é obtida por meio do lixo das pessoas que viveram ali, e esse lixo traz informações dos aspectos da vida social, do comportamento desses grupos"
Viva trabalhou durante dois anos na obra, entre 2007 até 2009. Ele conta que havia uma expectativa de identificar vestígios no prédio ligados ao período colonial, mas pouca coisa foi identificada dessa época. "O subsolo do Palácio Anchieta estava muito alterado", destacou.
Apesar disso, foi possível traçar, por meio de alguns elementos ali encontrados a sucessão de grupos naquele prédio, e utilização de índios na mão-de-obra.
"Nós encontramos vestígios de cerâmica indígena, muito provavelmente associada a uma ocupação tupi-guarani anterior à construção do Palácio. Isso é um ponto importante, porque as ocupações portuguesas se deram no início da colonização."
Pedaços de garrafas de bebidas importadas e aparelhos de jantar também foram encontrados durante as escavações e, segundo Viva, permitem imaginar que a vida cotidiana no Palácio era marcada por muitos jantares e recepções.
Além disso, lâmpadas de arco voltaico – a primeira forma de iluminação elétrica utilizada – e fios de telefone mostram que o prédio era um símbolo de modernização tecnológica da época.
"Durante as escavações encontramos um fio velho, que era praticamente um lixo. Mas ao analisar a gente identificou que naquele pedaço de fio estava a primeira instalação telefônica de Vitória, a primeira tecnologia de comunicação introduzida na cidade. A gente percebe que o Palácio do governo era o que se tinha de melhor para mostrar à sociedade, em termos de comodidade e tecnologia."
Alguns desses achados se encontram hoje em uma sala aberta para visitação.
OSSADAS
Por baixo da arquitetura do Palácio Anchieta, elementos curiosos foram encontrados durante o restauro. Um deles foi um pedaço de jornal, da década de 20, encontrado dentro de um dos balaústres pelo restaurador Rafael Rodrigues.
Mas nada deixou o grupo tão curioso quanto as ossadas encontradas na região do prédio.
"Quando foi feita a prospecção da parte exterior, foram descobertas algumas ossadas enterradas ali, uma delas na calçada, outra debaixo do piso do Salão São Tiago. Houve todo um rebuliço na época, porque já tinham aquelas histórias de fantasma, né?", brincou o arquiteto Pedro Canal Filho.
A existência de enterramentos, contudo, já era esperada. De acordo com Luiz Viva, era comum enterrar pessoas na região das igrejas durante o período colonial, já que não havia cemitérios.
"Na época isso causou um espanto porque ali funcionou a imprensa oficial do Estado, mas antes disso era uma igreja. Era totalmente previsível que pudessem ter ossadas ali. Inclusive ainda deve haver dezenas que não foram encontradas no restauro ou foram retiradas em reformas anteriores", pontuou.
Viva conta que quanto mais próximo do altar o corpo era enterrado, mais prestígio uma família tinha. No caso da ossada encontrada no piso do Salão São Tiago, onde antes funcionava a igreja, tratava-se de uma criança, provavelmente de uma família que tinha "relevância para a sociedade da época".
"O espaço interno da igreja é de destaque, é onde se enterravam os padres e pessoas que tinham posses. Essas ossadas são mais um elemento que nos permite imaginar o que se passou dentro daquele palácio e a sucessão de grupos e de poder ao longo dos séculos. Isso é extremamente valioso", finalizou.