Intensas como foram, as águas de janeiro não fecharam o verão, mas, ao menos nas aparências, podem ter fechado a reconciliação política entre o governador Renato Casagrande (PSB) e o presidente da Assembleia Legislativa, Erick Musso (Republicanos). As terríveis enchentes que atingiram municípios capixabas na segunda quinzena do mês, causando perdas humanas e prejuízos materiais inestimáveis, exigiram uma união de esforços para além de desentendimentos e ressentimentos políticos existentes entre os agentes envolvidos.
Embora dramático, o episódio acabou proporcionando aos chefes dos dois Poderes a oportunidade ideal para transmitirem ao meio político a imagem de que o conflito político deflagrado entre os dois ficou para trás, lá nos meses de novembro e dezembro. Bem ou mal, a tragédia humanitária criou uma situação sui generis: do ponto de vista político, a situação ideal para Erick e Casagrande tratarem de mostrar ao mercado que, para todos os efeitos, a crise política entre eles teria sido devidamente contornada. Seriam águas passadas.
Prova maior desse esforço foi o discurso feito por Erick, diante de Casagrande, na última terça-feira (4), em pleno Palácio Anchieta – isto é, em “campo adversário” –, durante a cerimônia em que o governo anunciou a liberação de R$ 214 milhões para o início dos trabalhos de reconstrução dos municípios afetados pelas chuvas de janeiro e também para a adoção de medidas de prevenção de desastres naturais. Resumindo em duas palavras a fala do presidente da Assembleia, sua mensagem foi um grande “conte comigo” endereçado a Casagrande.
Só para recordarmos: o conflito político em questão foi desencadeado em 27 de novembro, quando Erick Musso, à revelia de Casagrande e quebrando acordo firmado na véspera com o governador, convocou uma sessão surpresa na Assembleia, na qual a chapa liderada por ele elegeu-se para comandar a Casa no biênio inaugurado em fevereiro de 2021 – com mais de 400 dias de antecedência. No mesmo dia, Casagrande externou sua insatisfação, afirmando que a eleição daquela maneira fragilizava o Legislativo estadual. Substituiu o seu líder na Casa (Enivaldo dos Anjos por Freitas) e, nos bastidores, mobilizou os chefes de outras instituições para virar o jogo no tapetão.
Deputados e a OAB-ES ingressaram na Justiça pedindo a suspensão da sessão e da emenda de Erick Musso, aprovada dias antes, que viabilizara a eleição antecipada da Mesa Diretora. A Justiça suspendeu tudo, Erick recuou, a chapa inteira renunciou e a eleição foi anulada pelo próprio presidente, em ato publicado no Diário do Poder Legislativo. Mas a relação política entre os chefes dos dois Poderes ficou altamente estremecida.
Agora, a relação pode até não ter voltado ao que já foi (dificilmente voltará), mas Erick e Casagrande têm dado sinais muito nítidos de reconciliação. O primeiro deles veio justamente no auge da calamidade pública em que submergiram Iconha e outras cidades, em decorrência das chuvas. Atendendo ao pedido do governador com presteza e solicitude, o presidente da Assembleia convocou sessões extraordinárias em pleno recesso parlamentar e, na velocidade exigida pela situação, a Casa aprovou os projetos mandados pelo governo, necessários para a tomada de medidas de reconstrução das cidades e auxílio aos desamparados.
RETRATO DA MUDANÇA
No dia 27 de janeiro – exatos dois meses após a fatídica eleição prematura da Mesa –, um sorridente Erick Musso foi pessoalmente ao gabinete do governador para entregar os projetos que haviam acabado de ser aprovados. As leis foram sancionadas por Casagrande não só na presença de Erick como na de outros dois personagens emblemáticos nessa retomada da relação: o líder do governo na Casa, Eustáquio de Freitas (PSB), e o chefe da Casa Civil, Davi Diniz, encarregado direto da articulação do governo com a Assembleia.
Repare na foto abaixo. Ela foi tirada durante esse encontro. Todos só sorrisos, com destaque para Erick, certo?
Agora observe essa outra foto, tirada no dia 2 de dezembro, durante a posse de Rodrigo Chamoun como presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCES), menos de dois meses antes do registro acima. Separados pelo conselheiro Sérgio Aboudib, Casagrande e Erick eram tudo, menos sorrisos. Era o auge da crise entre os dois.
O DISCURSO DE ERICK: "QUANTO VALE UM GOVERNADOR ASSIM?"
Claro está, portanto, que a reestruturação das cidades afetadas pelas chuvas também serviu, colateralmente, como pretexto para a reconstrução da ponte entre os chefes do Executivo e do Legislativo no Estado. O segundo indicativo disso ocorreu na última terça, no já mencionado discurso de Erick. Em um lotado Salão São Thiago, diante de prefeitos da Grande Vitória e do interior, o chefe do Legislativo enalteceu o governo liderado por Casagrande e reassumiu publicamente o compromisso com a governabilidade e a estabilização institucional do Estado.
Erick iniciou o discurso dizendo que é preciso deixar “toda e qualquer divergência de lado quando o bem-estar da população capixaba tem que ser colocado à mesa”.
Em seguida, elogiou, detidamente, a reação pessoal de Casagrande no episódio das enchentes, em que alguns o criticaram por, supostamente, não ter arregaçado as mangas.
“Quanto vale nós termos um líder na cadeira de governador do Espírito Santo que, em menos de 24 horas, após um desastre natural inimaginável para qualquer cidadão do Espírito Santo, do Brasil e do mundo, sai do seu conforto do ar-condicionado, do conforto de sua família em um final de semana, e vai olhar de perto a dor e o sofrimento daqueles que perderam as suas roupas, o seu prato de comida, os seus documentos de apresentação pessoal, como uma simples carteira de identidade?"
"Quanto vale anunciarmos, diante da organização fiscal e econômica que temos, quinze dias depois de um desastre como esse, independente de governo federal ou de ajuda de outros Estados, mais de R$ 250 milhões? Não tem preço. E por isso, governador, nós estamos aqui unidos, porque o que importa são os capixabas, o que importa é o Espírito Santo que todos nós amamos, vivemos e queremos ver progredir."
Erick encerrou a fala fazendo juras de união a Casagrande. “Este ano, nós vamos ter muito trabalho, vamos ter muita dedicação, vamos ter muitos diálogos. Mas, para os capixabas que estão presentes aqui, aqueles que vão assistir vão saber pela boca de vocês: vamos estar juntos, Assembleia e governo do Estado, em favor do Espírito Santo.”
É claro que há muito jogo de aparências nessa reaproximação e nessa "união". Mas, rusgas passadas à parte, Erick e Casagrande continuam precisando muito um do outro. E, de um jeito meio torto, a crise humanitária de janeiro deu a eles o ensejo (ou pretexto) perfeito para procurarem transmitir a ideia de que, após o terremoto político e institucional que sacudiu os dois Poderes no fim de novembro e as inundações que abalaram o Estado no mês de janeiro, a crise política entre eles estaria superada. Será mesmo?
ADENDO: O CASO DAS FAKE NEWS
Não bastassem os episódios mencionados, é preciso destacar a rápida e enérgica reação de Erick Musso, na última quinta-feira (6), para desmentir a falsa conversa que circulou por grupos de WhatsApp, com mensagens atribuídas a Erick em que ele supostamente conspiraria contra o governador, com menção até a uma possível nova greve da Polícia Militar. Erick foi até o Ministério Público Estadual (MPES) para denunciar a fraude envolvendo o seu nome e que poderia jogá-lo contra o governador do Estado.