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Verônica Bezerra

Caso Marielle: pode até mudar quem mata, mas não muda quem morre

Na história da morte da vereadora do Rio muito pouco há de novo, o script quase sempre é o mesmo, com pouquíssimas alterações

Publicado em 15 de Março de 2018 às 19:45

Públicado em 

15 mar 2018 às 19:45

Colunista

Vereadora morta Marielle Franco Crédito: Reprodução
Acordei silenciosa. Silenciosa por conta da ira que me atravessou durante toda a noite. Ira que sinto desde que tive a notícia do assassinato de Marielle e que se atualiza quando toda e qualquer vítima da violência institucionalizada tomba. Uma jovem mulher, negra e de periferia. Uma jovem mulher que, ao traçar sua trajetória de luta, se manteve firme e inconteste ao lado dos invisíveis e matáveis, produzidos, deliberadamente, por um sistema perverso de exclusão, encarceramento e eliminação. Ao dar visibilidade a isso, Marielle tornou-se uma matável qualificadamente necessária. Afinal, mulher, negra e de periferia, e ainda que faz da denúncia seu instrumento de trabalho, “precisa morrer”. Precisa morrer para instrumentalizar a disseminação do medo e do terror, que vem a justificar o recrudescimento da reação que agora ameaça se impor. Precisa morrer para dar o recado àqueles que se arvoram a monitorar do Estado. Precisa morrer na tentativa de fazer calar as vozes que, teimosas, insistem na defesa da vida.
Na quinta-feira, essa mulher de 38 anos teve destinados a si nove disparos, em que quatro lhe atingiram a cabeça, de acordo com os noticiários que atravessaram a madrugada. Essa jovem mulher negra que vinha denunciando as graves violações de direitos humanos praticados pelo Estado do direito, especificamente em Acari. Marielle vinha denunciando as incursões do 41º Batalhão da Policia Militar, considerado o mais letal do Estado do Rio de Janeiro, que após o anúncio da intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro se tornaram mais frequentes e violentas, segundo ativistas e moradores de Acari. Há relatos de que quem ousa denunciar a truculência dos policiais passa a sofrer ameaça, segundo a organização Ponte. E mais, Marielle era a relatora da Comissão de Vereadores que acompanhará a intervenção federal no Rio de Janeiro
Permitindo-nos uma volta ao passado, em 1990, quando Marielle tinha somente 10 anos, Acari foi cenário do desaparecimento de 11 jovens, em circunstâncias não esclarecidas até hoje, e ainda pendente de responsabilização. A conhecida internacionalmente Chacina de Acari deixou marcas indeléveis nas famílias e mães, que da sua dor fizeram luta. Insta registrar que uma das mães de Acari foi assassinada tempos depois em turva situação. De certo, Marielle fora uma das testemunhas das consequências da Chacina de Acari, ao crescer naquela ambiência carregou em sua pele toda a história de negação de direitos e violência, tão bem conhecida pelos jovens da periferia. Contudo, Marielle, transformando a dor e ausência de direitos em potência, enfileirou-se na luta que teve sua estação de Paixão na noite de quinta. Esse é o destino daqueles que se dispõem a denunciar.
Imprescindível deixar registrado, aos que interessam e precisam ouvir, que os assassinatos como o de Marielle não põem fim na caminhada, como foi a de muitos que já tombaram. Tampouco será o prelúdio de reivindicarmos endurecimento das forças, mas, sim, o momento de exigirmos que as propostas cínicas saiam de cena, e de uma vez por todas o Estado de Direito seja respeitado pelo Estado do Direito.
Ainda estamos anestesiados, enquanto o corpo frio de Marielle resta necropsiado, materializando a violência crua que elimina vidas. Após sepultarmos Marielle, exsurgirá a força de seu legado, que potencializará a luta por todos aqueles e aquelas que desde sempre ainda permanecem na beira da estrada da efetivação dos direitos humanos.
Marielle, até quando? Até que haja uma derradeira vida em situação de negação. Até que possamos mudar essa história que nos acompanha há muito tempo. Até que não precisemos contabilizar nossos mortos que já estão marcados. Até que possamos ter noites de paz. Afinal, nesta história muito pouco tem de novo, o script quase sempre é o mesmo, com pouquíssimas alterações, pois de uma coisa temos certeza: pode até mudar quem mata, mas não muda quem morre.
 
* Verônica Bezerra é advogada, militante de direitos humanos e diretora de Direitos Humanos da OAB/ES

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