Diante deste cenário, apesar das vantagens competitivas naturais, o Estado padeceu. Por tanto tempo que a agenda de investimentos acabou sendo convencionada como "agenda velha". A tal agenda é (ou era) composta assim: Aeroporto de Vitória, BR 101, BR 262, Porto de Vitória e ferrovias. Aos trancos e barrancos as soluções têm chegado.
A notícia de que R$ 2,3 bilhões do acordo de Mariana irão para a 262 capixaba é mais um relevante avanço. Claro, tudo depende de muita atenção e, em se tratando de Brasil (vide as reviravoltas da 101), as coisas podem mudar, mas, hoje, o Espírito Santo encontra-se em uma posição única, em décadas, de estar muito perto de deixar a "agenda velha" para trás. Entenda:
Porto de Vitória: concedido à iniciativa privada, Vports, desde o final de 2022, o Espírito Santo tem, hoje, a única autoridade portuária privada do Brasil. O complexo vem passando por melhorias e o ritmo de assinatura de novos contratos com operadores acelerou nos últimos dois anos. Aqui cabe um adendo muito relevante: até 2013, apenas portos públicos podiam operar cargas de terceiros, a lei mudou e o Espírito Santo passou a ser foco de investidores da área.
Portocel, de Cenibra e Suzano, que era dedicado a cargas florestais, está em ampliação. No ano que vem,
o Grupo Imetame, de Aracruz, vai inaugurar o seu porto, em Barra do Riacho. Em Presidente Kennedy, o Porto Central deve ter novidades para breve. Ou seja, até 2013, o Porto de Vitória era a única opção, agora, o cenário mudou e os investimentos privados estão vindo com força, desatando um nó que era complicado.
BR 262: a principal ligação rodoviária entre Espírito Santo e Minas Gerais atravessa uma região muito montanhosa, tem um traçado sinuoso, portanto, de difíceis (e caras) intervenções de engenharia. Por duas vezes o governo federal tentou conceder a via à iniciativa privada, nenhum interessado apareceu. A reserva de R$ 2,3 bilhões para aportar na rodovia vai ser um relevante empurrão, o recurso será 100% destinado ao trecho de cerca de 200 quilômetros que corta o Estado. O Dnit já encomendou o projeto executivo, que deve ser entregue até julho do ano que vem. Ainda não há data para a obra, mas pelo menos já se sabe de onde virá o dinheiro (e não é de Brasília).
Ferrovias: este é, atualmente, o grande desafio posto. Hoje, a única ligação ferroviária operacional do Espírito Santo é a Ferrovia Vitória-Minas, que pertence à Vale. O Estado trabalha em duas frentes: melhorar o escoamento de cargas pela Vitória-Minas e viabilizar a construção de uma ferrovia até a cidade do Rio de Janeiro.
Sobre as cargas pela Vitória-Minas, a ideia é melhorar a eficiência da Ferrovia Centro Atlântica (corta oito estados e conecta-se à Vitória-Minas na Grande Belo Horizonte) e trazer mais movimento vindo do Brasil Central (agro) para os terminais portuários capixabas. A operação está com a VLI Logística, a concessão do serviço vence em 2026 e a companhia quer a renovação antecipada. O debate está em pleno curso. Na ponta do Rio de Janeiro, há outra discussão em andamento.
O governo do Estado conseguiu, junto ao Ministério dos Transportes, a garantia de que a Vale fará o ramal entre Grande Vitória e Anchieta (Ubu). O maior desafio está em levar o projeto mais à frente, até o Rio. Importante frisar que na região de divisa entre os dois estados há grandes projetos portuários: Açu, já em operação, em São João da Barra (RJ), e o Porto Central, projeto de grande porte previsto para Kennedy. Se a ferrovia chegasse a estes dois complexos já seria uma grande vitória. Bom sempre lembrar que ferrovia e porto precisam funcionar bem e juntos.
A "agenda velha" das obras de infraestrutura do Espírito Santo pode se transformar em página virada. Vamos torcer (e cobrar).