Os primeiros dois parágrafos da carta divulgada pelo presidente Donald Trump, na quarta-feira (09), anunciando e justificando a imposição de uma tarifa de 50% em cima de todas as exportações brasileiras para os Estados Unidos, deram forte coloração política a um assunto que é técnico e econômico. Ao sair em defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro, que está sendo julgado pelo Supremo Tribunal Federal por tentativa de golpe, Trump deu um discurso ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que vinha amargando uma consistente perda de popularidade. Lula pescou a deixa do norte-americano e mergulhou de cabeça em defesa da soberania nacional (em linha, claro, com seus apoiadores e, de quarta passada para cá, com muita gente que tem muitas críticas ao governo, mas que, diante do cenário, cerrou fileiras). Os resultados dessa mudança nas nuvens começaram a aparecer:
pesquisa Atlas/Bloomberg, divulgada nesta terça (15), mostra uma melhora consistente da avaliação do presidente, com um avanço de 2,4 pontos percentuais.
O empresariado está de olho nesses claros movimentos da política e se preocupa. O maior medo é de que uma guerra de narrativas entre os pólos da política inviabilize uma saída equilibrada. Por isso, uma espécie de "terceira via" das estratégias, montada por empresários e executivos, está em curso. "O nosso maior receio é entrarmos em uma guerra de narrativas, que só interessa a quem está preocupado com política eleitoral ou outras questões menores, e esse acordo demorar para sair ou simplesmente não sair. Este não é o cenário esperado, mas precisamos estar atentos aos movimentos, por isso, estamos em contato direto, sem intermédio de governos, com nossos clientes norte-americanos e entidades representantes. São grupos muito fortes e que terão os seus negócios afetados por essas tarifas. Isso já está chegando ao governo dos Estados Unidos", explicou o executivo de um peso-pesado da indústria capixaba sob anonimato.
Só para ficarmos em alguns exemplos: mais de 16% da produção total de café do Brasil, que é a maior do mundo, vai para os Estados Unidos. Há outros fornecedores, mas eles não sobram no mundo, portanto, é possível que o cafezinho do norte-americano suba de preço com o tarifaço. Os empresários brasileiros têm estreita relação com a National Coffee Association (NCA), que representa a indústria de café dos EUA, que emprega mais de 2 milhões por lá.
O presidente da NCA, William Murray, visitou o Espírito Santo em 2023. Boa parte do aço produzido pela ArcelorMittal Tubarão abastece a indústria automobilística dos Estados Unidos (aliás, uma das mais defendidas por Trump em seus discursos). Por fim, as fábricas da Suzano no Espírito Santo são grandes fornecedoras de celulose para gigantes do porte de Kimberly-Clark e Procter & Gamble. A saída, na visão dos empresários, pode vir daí.
Os indicativos dados pelo governo brasileiro, nesta terça-feira, de que a possibilidade de retaliação aos EUA está, neste momento, afastada, agradou o empresariado. O que eles querem é negociação e água na fervura.