Previsibilidade é ponto básico para qualquer sociedade que quer se desenvolver social e economicamente. Infelizmente, o Brasil é pródigo em derrapadas nesta seara, os impactos não são pequenos. Vejamos
o exemplo da desoneração da folha de pagamentos, que vigora desde 2011 (alguns setores entraram e saíram no período). Com ela, em vez de a empresa pagar 20% em cima do conjunto dos salários dos funcionários, paga entre 1% e 4,5% do total do faturamento. A ideia é preservar os setores intensivos em mão de obra. O governo federal, de olho no caixa, é contra e foi ao Supremo Tribunal Federal reclamar. O objetivo aqui não é analisar o mérito da questão, há argumentos dos dois lados, mas a insegurança jurídica e econômica em que estamos colocados.
Renovada pelo Congresso Nacional no final do ano passado, a medida foi derrubada por uma decisão, do dia 26 de abril, do ministro Cristiano Zanin. O ministro Luiz Fux fez um pedido de vista e a análise está interrompida no plenário do STF. Até que saia o veredicto, a decisão de Zanin está valendo, portanto, as empresas dos 17 setores beneficiados (entre eles o de Comunicação) voltarão a recolher 20% em cima do conjunto dos salários. De acordo com a Receita Federal, a reoneração está em vigor e o valor a mais terá de ser pago já no próximo dia 20 de maio, prazo do recolhimento. Como fica o planejamento financeiro das empresas? E a confiança dos empreendedores como um todo? E se o plenário do STF não confirmar o voto de Zanin? É muita névoa sobre a economia.
Vamos avançar um pouco mais na questão, de novo sem entrar no mérito, apenas na forma como as coisas estão sendo colocadas em prática. A reforma tributária acaba com os incentivos fiscais. Está posto. Para que a potência dos benefícios fosse mantida intacta até 2032, como prevê a lei aprovada pelo Congresso Nacional em 2021, está colocada a criação do Fundo de Compensação de Benefícios Fiscais, para funcionar entre 2029 e 2032, janela de transição do ICMS para o IVA.
Mais nebulosidade, incerteza e, consequentemente, insegurança na economia. Nada disso ajuda. Pelo menos, no caso da reforma, ainda há tempo para debater. No caso da desoneração, a insegurança está posta e os impactos reais são iminentes.